Policial
Sangue frio, escândalo, máfia, CPIs e mortes no calvário do câncer
Em quatro anos, foram R$ 12 milhões. No dia da operação, Siufi chegou a ser preso por porte ilegal de arma, sendo liberado após pagar fiança de R$ 30 mil.
Campo Grande News
30 de Dezembro de 2013 - 09:00
Terça-feira, 19 de março de 2013. Campo Grande despertou a Sangue Frio. Nas primeiras horas da manhã - munidos com 19 mandados de busca e apreensão e quatro ordens judiciais de afastamento de funções - policiais federais foram ao Hospital do Câncer Alfredo Abrão, ao HU (Hospital Universitário) Maria Aparecida Pedrossian, à residência do médico Adalberto Abrão Siufi e à clinica NeoRad.
Desde a data, o ano foi um desdobramento do escândalo, potencializado, principalmente, pela divulgação de escutas telefônicas revelando conchavos em que a saúde era a última das preocupações.
A primeira suspeita sobre o Hospital do Câncer foi lançada pelo MPE (Ministério Público Estadual). Na semana anterior à operação da PF (Polícia Federal), a promotora Paula Volpe havia pedido à Justiça o afastamento dos três diretores, sendo Adalberto Siufi o diretor-geral.
Conforme a denúncia, a unidade hospitalar mantinha contrato com a NeoRad, empresa cujo um dos proprietários era Siufi; cobrou por atendimento a paciente morto e remunerou parentes do diretor com altos salários.
Outro detalhe era que a Neorad recebia tabela SUS (Sistema Único de Saúde) mais 70%. Em quatro anos, foram R$ 12 milhões. No dia da operação, Siufi chegou a ser preso por porte ilegal de arma, sendo liberado após pagar fiança de R$ 30 mil.
Com as denúncias, os efeitos foram imediatos. O Conselho Curador do hospital nomeou nova diretoria e afastou o médico. No HU, José Carlos Dorsa Vieira Pontes foi afastado da direção por 60 dias, próximo à data do retorno, pediu para sair do cargo. Na unidade, foram investigadas fraudes em licitações, corrupção passiva, desvio de dinheiro público e superfaturamento em obras.
A suspeita é de que a rede pública de atendimento ao câncer foi desmontada em privilégio do setor privado. Até hoje, a NeoRad e o Hospital do Câncer são os únicos que ofertam radioterapia pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Siufi e Dorsa negam as acusações.
Fantástico - Em 5 de maio, a divulgação das investigações no Fantástico, na Rede Globo, deu novo fôlego às denúncias. De imediato, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, veio a Campo Grande e determinou a criação de uma força-tarefa, que fez levantamento em prontuários de pacientes vivos e mortos.
Do total de 255, 40 fichas foram consideradas prioritárias: 22 de pacientes que morreram. A investigação também foi feita na Santa Casa de Campo Grande, Hospital Regional Rosa Pedrossian e Hospital Evangélico de Dourados. Em outubro, a PF (Polícia Federal) indiciou oito pessoas por participação no grupo que ficou conhecido como Máfia do Câncer. O inquérito corre sob sigilo e os nomes não foram divulgados.
Lembrança inconsolável - Com as denúncias, uma romaria de famílias foi ao Ministério Público Estadual em busca de informações sobre a morte de entes queridos. A dúvida é se o falecimento foi em virtude da doença ou atendimento inadequado.
A divulgação de escutas telefônicas lançou dúvida sobre a qualidade do atendimento. Numa delas, a farmacêutica Renata Burale aparece trocando remédio receitado pela médica por um mais barato, a pedido de Betina Siufi, então diretora administrativa Hospital do Câncer.
Em um dos diálogos gravados pela Polícia Federal, a farmacêutica diz: Estou com uma prescrição aqui de um paciente do CTI, que a médica passou um antifúngico pra ele. Betina Siufi: É caro pra cacete esse negócio. Nem f..., desculpa o termo. Tá?. Renata diz: Essa doutora Camila que passa essas coisas cabulosa. Na hora que eu vi o preço, eu falei Não.
Em 31 de julho, a CPI da Saúde, realizada pela Câmara Municipal, um dos desdobramentos das denúncias, ouviu parentes de pessoas que morreram durante o tratamento. Emocionado, o aposentado Galbino Lima, de 59 anos, relatou a perda do genro. O paciente teve câncer gástrico e era atendido no Hospital do Câncer.
Ele contou que após análise do prontuário foi constatado que o medicamento que o genro recebia era dipirona. Ainda segundo Gabino, na avaliação da força-tarefa, o tratamento foi insuficiente.
Deixaram ele chorando de dor em uma cama e não fizeram nada, citou Gabino. Ele se emocionou ao falar do neto, de 4 anos. Não quero que meu neto me pergunte se eu vi tudo isso acontecer com o pai dele e não fiz nada, por isso, me coloco à disposição das investigações.
Os holofotes As denúncias levaram à criação de duas CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito). A Câmara Municipal de Campo Grande sai na frente e abriu a investigação. Em maio em 20 de dezembro, a comissão pediu o indiciamento de Adalberto Siufi, José Carlos Dorsa, Eva Glória Siufi ( irmã de Adalberto), Blener Zan e Luiz Felipe Terrazas, os dois ex-presidente do Conselho Curador da Fundação Carmem Prudente, que administra o Hospital do Câncer.
O tema também foi apurado por uma CPI na Assembleia Legislativa, que fez um diagnóstico da Saúde em cidades de Mato Grosso do Sul.
Reação em cadeia No dia primeiro de julho, a divulgação de escutas da operação Sangue Frio levou ao pedido de demissão da secretária estadual de Saúde, Beatriz Dobashi.
Na ocasião, também foi dispensado o diretor do HR (Hospital Regional) Rosa Pedrossian, Ronaldo Perches Queiroz. Ele ainda comandava a Funsau (Fundação de Serviços de Saúde).
Na gravação, eles combinam como responderiam ao Ministério da Saúde solicitação sobre o interesse do Estado em repasse de aceleradores lineares para tratamento de pacientes com câncer.
A estratégia era a de convencer o Inca (Instituto Nacional do Câncer) a enviar os equipamentos apenas para o HR e ao Hospital do Câncer, dirigido na época por Adalberto Siufi.




