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Um jornal a serviço do MS. Desde 2007 | Sexta, 25 de Setembro de 2020

Sidrolândia

O desafio de ficar em Isolamento social quando se mora num vagão ou no barraco

Moradores relatam a dificuldade de morar em barracos e sobreviver da coleta e venda diária de lixo reciclável.

Flávio Paes/Região News

22 de Abril de 2020 - 13:33

O desafio de ficar em Isolamento social quando se mora num vagão ou no barraco

Se você que tem emprego formal (na iniciativa privada ou no poder público), mora numa residência de alvenaria, não gosta da ideia de ficar em casa para seguir a recomendação dos médicos que defendem o isolamento social, imagina a dificuldade que é para quem mora num barraco, sobrevive da coleta e venda diária de lixo reciclável ou de uma diária de serviço domésticos.

Ficar trancado não é alternativa para "Magnata", o nome artístico de Ziobert Afonso de Souza, que há 4 anos mora num vagão de trem na antiga esplanada, que desde junho de 2018 transformou-se numa favela com mais de 160 famílias a meia quadra da principal avenida comercial da cidade, a Dorvalino dos Santos.

"Coloco nas mãos de Deus esta história de coronavírus. Pra sobreviver, preciso sair cedo, coletar e vender o material reciclável. Dependo disso pra comprar comida, beber, fumar e pagar a conta de água", relata. Ele está há 4 anos na cidade, metade deste tempo morou embaixo de uma árvore perto do Posto Pé de Cedro. Tem 55 anos e sofre de bronquite asmática (o que torna um potencial integrante do grupo de risco do Covid-19).

Quem também não tem a opção de ficar em casa para escapar das aglomerações, é o ex-operador de máquinas agrícolas, pai de 3 filhos, Luiz Laureano, 65 anos. Desde que ficou desempregado, teve de se juntar as famílias do acampamento para escapar do aluguel de R$ 300,00.

Sobrevive da venda de lixo reciclável, que nestes tempos de pandemia não lhe rende mais que R$ 800,00, menos de um salário mínimo por mês. Assim como Magnata, não usa máscara em suas andanças pela cidade, nem recebeu equipes da Saúde para se vacinar contra influenza.

Pior situação é enfrentada pela diarista Dorcas de Jesus, 36 anos, separada do marido, mãe de 4 filhos, há 8 meses em Sidrolândia para onde se mudou vindo de Lemes, no interior de São Paulo, segundo ela para fugir da violência do ex-marido que a agredia, embora tenha medidas protetivas da Justiça contra ele.

Mora num barraco de lona sem porta. O ex-marido não vem pagando a pensão das crianças. Sobrevive de R$ 260,00 que recebe de bolsa família e das diárias. Parte do dinheiro do auxílio emergencial que receberá do Governo Federal vai gastar na compra de um óculos de grau. "Sem óculos, estou praticamente cega", revela. Ela defende a volta ao trabalho. "O governo não vai dar dinheiro pra sempre. Se pode ter aglomerações para fazer festa, churrasco, tomar cerveja, porque não sair pra trabalhar?", questiona.