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Sidrolandia

Em Paranhos, índios guarani se livram da miséria com arrendamento de 3 mil hectares e plantio de mandioca

Reserva em Paranhos colhe um milhão de quilos de mandioca, cria porcos e tem frota própria, de caminhão e ônibus

Flávio Paes com informações do Campo Grande News

02 de Setembro de 2013 - 08:00

Os 556 índios da etnia Guarani Kaiowá, moradores da Aldeia Sete Cerros, em Paranhos, estão conseguindo garantir renda, adquirir bens de consumo e ter uma boa qualidade de vida sem depender da tutela da FUNAI e do poder público de um modo geral.

Conforme mostra reportagem do jornalista Edvaldo Bittencourt, do Campo Grande News, a comunidade conquistou sustentação financeira arredando três mil dos 8,5 mil hectares da reserva para fazendeiros da região. A prática condenada pelo Ministério Público Federal, mas aprovada pela comunidade, rende às famílias R$ 11,2 mil por mês.

Outra fonte de renda dos índios é o cultivo de quase 100 hectares (40 hectares) de mandioca, lavoura que proporciona uma renda de R$ 170 mil por safra e que é cultivada por grupos. Um deles, formado por sete mulheres ganhou R$ 20 mil na última colheita.

Uma parte da receita obtida é partilhada de forma comunitária, garantindo a cada família uma cesta básica por mês. Garantiu a compra de um ônibus com 46 lugares que é usado três vezes por semana nos deslocamentos até a cidade a 48 quilômetros da aldeia. Também foi adquirido um Ford 4000, ano 2004, a caminhonete Ranger será trocada por uma Fiat Strada. Os veículos são usados como parte da logística de produção.

O dinheiro do arrendamento custeia o plantio da lavoura, como a compra de óleo diesel, além da semente de milho (cultivado para subsistência) e a rama da mandioca. Os 20 mil litros de diesel enviados anualmente pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio) não são suficientes para atender as cinco aldeias do município. Na Sete Serro são tratores usados no preparo da terra.

O capitão Pedro Valiente, que com apenas a segunda série do ensino fundamental, comanda este choque de empreendedorismo na aldeia,  tem  planos ousados. A primeira meta é dobrar a área plantada, de 40 para 80 alqueires.

Diante da perspectiva de aumento da produção, o prefeito de Paranhos, Julio Cesar, está empenhado em viabilizar a reabertura de uma fecularia que existia na cidade com capacidade para processar 110 mil toneladas de mandioca por ano. O faturamento anual pode chegar a R$ 18,7 milhões.

A fartura na aldeia é garantida também pela criação de galinhas, a comunidade tem um rebanho de carneiros, 96 vacas leiteiras e porcos, que periodicamente são abatidos em lotes de cinco a seis leitões para a carne ser dividida entre os índios. Os 180 porcos ficam soltos durante o dia e são recolhidos à noite em um chiqueiro, que fica em um canto da reserva. Um dos dois cuidadores dos porcos é o aposentado Lucildo da Silva, 65 anos. Ele contou que dá ração aos animais duas  vezes por dia. “A vida é boa”, conta ele, aos risos.

Juvenil Vera Martins, 36 anos - pai de quatro filhos de 1, 6, 10 e 13 anos – cultiva a mandioca e o milho, também demonstra satisfação com a vida que leva na aldeia. Ele vende a produção que garante o sustento da família. Todos os filhos estudam na escola da aldeia. Um já concluiu o 5º ano do ensino fundamental e vai utilizar o transporte escolar para chegar na escola urbana.

Alison Valiente, 19 anos, dá aula de educação física na escola indígena. Ele está cursando o último ano do ensino fundamental, mas já sonha com a faculdade de Educação Física. O jovem conta com uma motocicleta para participar dos campeonatos de futebol amador em Paranhos e na cidade paraguaia de Ype-Jhú.

Pedro Valiente tem sonhos ambiciosos para a família, formada por cinco filhos e a esposa, Elza, 32 anos. A maior aposta está no filho Cleber Valiente, 15 anos, que é o Vinícius da dupla sertaneja Pedro Paulo e Vinicius. Eles já gravaram o primeiro DVD e promovem shows pela região. A dupla será uma das atrações da Expobai (Exposição Agropecuária de Amambai), um dos principais eventos do agronegócio da região sul do Estado.

Diante do sucesso, o plano é levar o exemplo da Sete Cerros para as outras quatro aldeias do município. Pela proposta, cada grupo de 7 a 8 famílias cultivariam de cinco a sete hectares de mandioca. “Se esperar pela Funai, não tem nada”, avisa o prefeito Júlio César.