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ECONOMIA

Mesmo com preço do leite 56,66% mais caro no supermercado, produtores abandonam produção

É o reflexo da lei da oferta e da procura que aparece neste período de entressafra quando a produção cai.

Flávio Paes/Região News

08 de Julho de 2016 - 07:00

O consumidor está pagando hoje até 55,66% mais caro pelo litro do leite de caixinha, em relação ao preço cobrado há 30 dias. Só parte deste aumento as indústrias estão repassando ao preço pago ao produtor que no mesmo período recebeu um incremento de 36,47%, passando de R$ 0,85 para R$ 1,15 o litro.

É o reflexo da lei da oferta e da procura que aparece neste período de entressafra quando a produção cai, a seca compromete o pasto e traz a reboque o encarecimento do custo de produção por causa das despesas com a alimentação do gado (a base de milho e soja).

A falta de preços remuneradores fez com que dona Aída Michalski tomasse a decisão radical de abandonar a atividade a que se dedicou e fez pesados investimentos ao longo dos últimos 15 anos. Colocou a venda as 60 vacas da raça Girolanda e toda estrutura de ordenha que implantou na sua propriedade de 70 hectares, boa parte já está arrendada para produção agrícola. “Há 8 anos a indústria pagava pelo litro do leite o equivalente ao preço de um litro de gasolina. Hoje o leite está em torno de R$ 1,00 para o produtor, em plena seca e a gasolina está a R$ 3,70. O custo de produção aumentou muito”, avalia.  Chegou a entregar para o laticínio 500 litros de leite por dia, agora a produção oscila entre 80 e 100 litros no máximo.

Quem também pensou em largar a produção leiteira foi dona Marlene Lewandowski, proprietária de uma chácara de 5 hectares na saída para Campo Grande. “Precisei ameaçar parar a produção para que a indústria aumentasse de R$ 0,85 para R$ 1,15 o preço pago pelo litro do leite”, relata. Além da pecuária leiteira (tem 10 vacas com produção mensal de 5.500 litros), se dedica a criação de frango com capacidade para alojar 40 mil animais. Por enquanto não está nos seus planos investir R$ 2 milhões na construção de galpões maiores (capazes de alojar 60 mil frangos), como está sendo sugerido pela JBS.

Foto: Reginaldo Mello/Região News

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No Assentamento Vacaria, onde há dois anos, boa parte das 48 famílias, se dedicava à produção leiteira, um dos poucos que ainda resiste na atividade é Antônio Brito, que combinando investimento em gado de raça e aplicação intensiva de tecnologia, atingiu o status de produtor modelo, com faturamento de R$ 5 mil resultado da venda de 200 litros de leite por dia. 

Se para o produtor o preço do leite não cobre os custos de produção, o valor cobrado não cabe no orçamento do consumidor. Até o mês passado o leite de caixinha custava em torno de R$ 3,50, agora ultrapassou a barreira dos R$ 4,00, se aproximando de R$ 4,50.

http://regiaonews.com.br/uploads/20160708062538Albertina_de_Oliveira_Cunha_(5).jpgÉ o caso de dona Albertina de Oliveira Cunha, funcionária da JBS, mãe de um filho de dois anos que consome de 15 litros de leite por mês. Voltou ao leite de saquinho que tendo aumentado 25% (passou de R$ 2,00 para R$ 2,50) é mais em conta. Por enquanto ainda resiste em comprar o leite caipira (sem pasteurização) que custa R$ 2,00, “porque a gente não sabe a procedência“.

Pesquisa

Levantamento realizado mensalmente pelo Nepes (Núcleo de Pesquisas Econômicas) da Uniderp, mostra que o preço do produto subiu consideravelmente, passando de R$ 2,99 para R$ 4,32. Dependendo da marca, a variação de aumento chega a 76,33%.

Em apenas um mês – entre maio e junho – o preço do item chegou a subir em 40%; de R$ 3,05 para R$ 4,29. O preço do leite tipo desnatado também apresentou variação positiva. No ano passado, ainda era possível comprar o mesmo por item por R$ 3,25. Mas em junho, o preço saltou para R$ 4,99.

Até maio, o item era encontrado por até R$ 2,99. Mais do que pesar no orçamento de julho das famílias, o preço alto do leite deve ter mais consequências no bolso, devido ao repasse para os derivados, como queijo, manteiga, requeijão, doces, entre outros.