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Sidrolandia

Água x Óleo: O que fazer com o óleo depois que não serve mais para o consumo?

Dourados News

23 de Agosto de 2012 - 08:52

A população mundial tem substituído à banha animal pelos óleos vegetais em sua alimentação, porém o consumo tem aumentado a cada ano o que agrava tanto a saúde das pessoas quanto o problema ambiental, quando esse óleo não é reciclado.

De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) a produção mundial de óleos vegetais cresceu aproximadamente 400% entre 1974 e 2007. E os óleos mais utilizados são o óleo de palma (dendê) e de soja.

Até quando utilizar o óleo?

Um problema que acontece antes do fator ambiental é saber até quando esse óleo pode ser utilizado, sem prejudicar a saúde do ser humano. O Doutor em Física e professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul - UEMS, Rony Gonçalves de Oliveira, fez em sua tese de doutorado uma pesquisa para saber a respeito da degradação de óleos vegetais que são utilizados no processo de fritura, principalmente os industriais. “Esses óleos vegetais que a gente utiliza no nosso dia a dia, principalmente os óleos de soja e os óleos de mais baixo custo, são destinados a processos em que eles são submetidos a altas temperaturas, entre 180 e 200 graus Celsius, e por longos períodos de exposição isso se dá de forma repetida. E acontece que nesse processo muitas vezes o óleo é submetido a uma série de reações químicas, e essas reações químicas são introduzidas no óleo, gerando também uma quebra das moléculas nele, o resultado é a formação de um monte de compostos de degradação no interior do óleo. Esses compostos de degradação à medida que eles vão se acumulando na composição do óleo vão tornando o óleo inadequado para o consumo”, explica Oliveira.

Esse problema é maior quando o objetivo é comercial, pois a dona de casa cuidadosa não usa o mesmo óleo por muito tempo, “é geração fast-food, a geração que não tem tempo para preparar seu alimento, que consome tudo industrializado, então com o passar dos anos o brasileiro, principalmente, vem ingerindo uma quantidade cada vez maior de gordura e a procedência dessa gordura, por ser industrial e comercial é duvidosa, e muitas vezes nós consumimos coisas que são prejudiciais a nossa saúde e nós não temos condições nem ferramentas para estar detectando esses problemas. Então nesse sentido, o grande valor do trabalho está em estar proporcionando a sociedade as ferramentas para investigação e monitoramento do que nós temos ingerido no nosso dia a dia”, comenta o Doutor em Física.

Mas por enquanto no Brasil não existe nenhuma legislação que trate do uso abusivo do óleo, como existem em alguns países, principalmente da Europa. Então a proposta da tese de Rony Gonçalves é “o desenvolvimento de técnicas baseadas em propriedades físicas que possam medir a evolução dessa degradação do óleo, para estabelecer um limite para esses produtos”. Um dos testes usa a luz, que é um parâmetro físico chamado de índice de refração, se traduz simplesmente na “dificuldade que a luz tem de atravessar determinado meio material, então o óleo à medida que vai sendo degradado, vai se observando que ele vai ficando mais escuro, denso e viscoso, então isso a luz ao atravessar um óleo mais degradado tem mais dificuldade de atravessá-lo do que teria em atravessar um óleo novo”, explica Oliveira.

O que acontece quando o óleo velho vai para a natureza?

Opção “A”: jogar no ralo da pia ou opção “B”: reutilizar na fabricação de biocombustível e sabão? Se assinalou a opção “A”, fique sabendo que cada litro de óleo descartado na natureza polui um milhão de litros de água e, se assinalou a opção “B” muito bem, você esta ajudando a natureza!

O Biólogo e Mestre em Ecologia e conservação, Vanderlei Berto Júnior, explica que quando o óleo atinge o solo pode causar a sua impermeabilização, “no solo normalmente tem umidade, ele acaba formando uma camada de óleo e essa camada acaba contribuindo para a impermeabilização do solo, isso dificulta a entrada de água nas camadas mais profundas no lençol freático, podendo provocar enchentes, por exemplo, dificulta o ciclo normal da água, e pode dificultar a passagem de oxigênio para as camadas mais profundas do solo, causando a morte de organismos, por falta de oxigênio.

Além da impermeabilização do solo o grande e mais famoso problema que envolve o óleo é a poluição da água, pois se ele alcançar o lençol freático vai acabar contaminando o rio, e do rio para mar. Além de tornar a água não potável, o óleo pode causar morte de animais na água. “O óleo boia na água, devido a densidade diferente, também pode formar uma camada de óleo em cima da água e aí também dificulta a oxigenação da água, então os organismos da água podem morrer por asfixia, falta de oxigênio, diminuir a evaporação da água, por ter uma camada em cima, a entrada de luz. Então inclusive a fotossíntese de algas, plantas aquáticas podem também ser prejudicadas pela diminuição na entrada de luz, por conta dessa camada que fica na água”, explica o Mestre em Ecologia e conservação.

O que fazer com o óleo usado?

Como já foi dito pode se fazer sabão ou biodiesel, mas onde depositar esse óleo? Alguns supermercados de Dourados, como São Francisco e Extra recebem esse óleo da população e repassam para empresas que fazem o biodiesel.

A servidora pública, Rachel Dias, é um dos exemplos de cidadãos que depositam o óleo usado no papa óleo, ela passou a depositar ali depois que começou a frequentar o mercado, mas antes ela dava para sua empregada fazer sabão.

A Biocar Biodiesel é a empresa receptora do óleo de ela arrecada apenas 30 toneladas por mês na cidade de Dourados, o resto cerca de 700 toneladas, tem que comprar dos grandes centros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, onde existem ONGs que fazem a coleta.

Anderson Vieira, do departamento Financeiro da Biocar Biodiesel, conta que “a empresa tem uma responsabilidade ambiental ainda maior porque ela esta mexendo com um produto que seria jogado fora, no lixo , a primeira preocupação é tirar esse óleo do lixo e transforma-lo em biodiesel”.

O processo de transformação do óleo de fritura em biodiesel não é tão complicado: “quando o óleo chega ele tem que ser separado, pois ele vem com resíduos, impurezas, umidade (porcentagem de água dentro do óleo), é adicionado o metanol, um antioxidante, é feito um processo com umas maquinas e começa a sair o biodiesel. Então nesse momento é separada a glicerina que é usada em alguns produtos (para fazer sabão) e sobra o biodiesel que se revende como combustível, que é adicionado ao óleo diesel”, explica Viera.

A empresa também tem o cuidado de retirar o máximo toda água do óleo, a água é tratada e devolvida ao rio. Uma curiosidade dita pelos técnicos da Biocar é de que se a água sem tratamento for jogada diretamente na terra ela se torna preta e improdutiva.

O Rotary Clube Guaicurus, de Dourados/MS, está em parceria com a Biocar, e criou o Projeto “Óleo Amigo do meio ambiente”, a cada oito litros de óleo usado troca-se por um litro de óleo novo.

Mas existem pessoas que destinam o óleo usado diretamente para pessoas que produzem sabão, é o caso de Edna Maria Vasconcelos, que usa na fritura de salgados em sua sorveteria cerca de 24 litros de óleo por mês. Ela doa para várias pessoas que transformam em sabão líquido ou em barra é o caso de Maria Aparecida de Menezes dos Santos, “eu reaproveito tudo, eu vou juntando o óleo de cozinha e reaproveito fazendo um sabão bem econômico”.

Sustentabilidade

Mas o que significa Sustentabilidade? É tentar viver agredindo o mínimo possível a natureza como explica o Biólogo e Mestre em Ecologia e conservação, Vanderlei Berto Júnior, “é contaminar, poluir e utilizar de maneira racional os recursos naturais, ou seja, eu posso usar o óleo usado pra fazer sabão, o óleo usado para fazer biodiesel, e não mais desgastar o solo extraindo petróleo para fazer diesel”.

E o óleo de cozinha tem tudo a ver com a questão sustentável alias até de administração saúde e pública, pois o óleo que vai para o esgoto pode entupir o esgoto da cidade e quando não é possível usar maquinas para desentupir são usados produtos químicos para limpar os canos, e esse vai ser mais um contaminante que irá chagar no rio e no mar.

Afinal, como brinca o professor Vanderley Júnior, “ninguém é xiita, ninguém precisa se amarrar em árvore para agir de maneira sustentável, são coisas simples de se fazer”. Com ações fáceis pode-se contribuir para a conservação do planeta, então não tente escoar pelo ralo um problema que vai se multiplicar ainda mais no futuro, não tente misturar o que não se mistura!