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Sidrolandia

Artuzi me abriu a mala preta”, diz Passaia

ENQUANTO 1ª DAMA FAZIA CIRURGIA ESTÉTICA, MENINO PERDIA VISÃO

Dourados Agora

02 de Setembro de 2010 - 07:27

Sob proteção da Polícia Federal, o jornalista Eleandro Passaia concedeu ontem à tarde na PF, uma entrevista coletiva. No relato ele conta como funcionava o esquema de corrupção e como tudo começou. O jornalista Eleandro Passaia foi o braço direito de Ari Artuzi durante a campanha política, que o elegeu no final de 2008. Assumindo a prefeitura, Artuzi nomeou o jornalista como seu secretário de Comunicação. Passando alguns meses, após a Operação Owari, que levou secretários, vereadores, servidores públicos e empresários para a prisão em julho de 2009, Passaia pede demissão, depois de receber uma proposta da TV Record.

Passados alguns meses, Passaia recebe nova proposta de Artuzi para reassumir a Secretaria de Comunicação. O jornalista acaba aceitando, porém, conforme sempre pregou, tinha outros objetivos profissionais, que o levaram aceitar a proposta, uma delas seria promover o município, mostrando as suas potencialidades afim de atrair investimentos.

Ele também dizia que acreditava no trabalho de Artuzi por ser uma pessoa batalhadora, porém discriminada politicamente, pois muitos, não acreditavam em seus projetos. Os planos de Passaia era reverter a imagem negativa do prefeito, mostrando a competência do gestor para alavancar o desenvolvimento do município. Tanto que quando Dourados completou 75 anos, em dezembro do ano passado, foi lançado um selo para propagar a cidade pelo Brasil, com uma mensagem sugestiva: “Dourados 75 anos, o melhor lugar para se investir”. “Queremos mostrar as potencialidades de Dourados, e o selo é uma forma de conseguir esse objetivo”, dizia Passaia.

Percebendo a sua habilidade para lidar com a Imprensa e confiança no seu trabalho, Artuzi também achou que Passaia teria a mesma habilidade para lidar com os políticos e por isso, há quatro meses, o convidou para ser seu secretário de Governo. Passaia acabou assumindo a função, mas não deixou de responder pela Secretária de Comunicação.

MALA PRETA

Conforme relatou Passaia durante coletiva, foi nesta época que o prefeito resolveu abrir a “mala preta”. “Assim que aceitei o cargo o prefeito me abriu a ‘mala preta’, revelando tudo que acontecia, assim, fiquei sabendo de todos os atos de corrupção; como por exemplo, que pagava propina para os vereadores aprovarem seus projetos, que de cada licitação feita, ele teria 10%, muitas vezes recebia adiantado”, relata. Ele diz que se sentiu traído e com isso decidiu procurar a Polícia Federal e contar o que estava acontecendo. “Eu cheguei ao delegado Galoni e contei tudo; tinha duas opções: pedir demissão e ir embora ou colaborar com a polícia. A segunda opção foi aceita e a partir daí comecei a gravar tudo com material fornecido pela policia”, relata. “Sei que muita gente vai falar que fiz isso porque tenho pretensões políticas ou que sou um bandido arrependido, mas quando você vê o sofrimento das pessoas da periferia, é impossível dormir tranquilo”, comenta Passaia.

ESTÉTICA

Ele revelou que as ofertas eram boas, que se incorporasse ao esquema poderia receber a quantia de R$ 50 mil a R$ 100 mil por mês; dinheiro desviado dos cofres públicos. O ex-secretário se emocionou ao lembrar, que certa vez, com o desvio de R$ 100 mil do Hospital Evangélico, parte do dinheiro foi para a primeira dama, Maria Artuzi, fazer uma cirurgia de estética, enquanto isso, um menino da periferia perdia a visão por falta de materiais de insumos. “Os olhos tiveram que ser extraídos, porque faltou atendimento hospitalar para a paciente. Tudo o que o prefeito fazia ele pedia dinheiro em troca”, revelou.

“Até para comprar um terreno no Jardim Novo Horizonte ele pagou R$ 560 mil e pediu R$ 80 mil de retorno. Ele recebia R$ 60 mil por mês da GWA, uma empresa que faz o transporte escolar. Fora o dinheiro que ele pedia a parte, o próprio dono da empresa me disse que desde o inicio do ano passado deu a Artuzi a quantia de R$ 1,5 milhão”, avaliou. Ele disse que o prefeito não recebia menos de R$ 500 mil de propinas por mês. Passaia conta que uma vez Artuzi lhe deu R$ 15 mil, mas o dinheiro foi entregue a Polícia Federal. “Está tudo gravado”, disse.

ALMA LAVADA

O ex-secretário disse que se sente com a alma lavada. “Se eu tivesse medo de ameaça não teria enfrentado sistema corrupto de Dourados que já há 20 anos; na administração passada também acontecia”, revela. Questionado se fica na prefeitura, Passaia foi incisivo: “Se o prefeito Ari Artuzi ou o vice-prefeito Carlinhos Cantor voltar para a prefeitura, com certeza não serei secretário nunca. Se por acaso um juiz administrar a cidade e achar que eu posso ficar para ajudar de qualquer maneira eu me coloco a disposição”, garantiu.

LIVRO

Passaia adiantou que vai lançar um livro e que não teme processos. “Eu quero avisar que eu não vou mudar nada e que será uma honra ser processado por falar a verdade. Prova é quando você consegue filmar alguém pegando dinheiro. Eu não sou advogado, mas é prova filmar um deputado ou assessor dele pedir retorno financeiro? Se isto for prova eu tenho. Aliás, não tenho mais, uma vez que elas estão a disposição da PF”, finalizou.

SINDICATO

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais na Região da Grande Dourados (Sinjorgran) manifesta total apoio ao jornalista e filiado Eleandro Passaia pela coragem de ter contribuído nas denúncias que levaram a Polícia Federal a “detonar” mais um esquema de corrupção na prefeitura de Dourados. O sindicato disse que se solidariza com o gesto de coragem do jornalista e coloca todo seu departamento jurídico e estrutura à disposição para garantir a integridade física dele neste momento tenso e complicado na vida política de Dourados.