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Sidrolandia

"Chico Xavier", três documentários espíritas são exibidos no Festival de Gramado

No domingo, num frio cortante na Serra Gaúcha, manifestações de outro mundo se fizeram sentir em "O último romance de Balzac".

O Globo

10 de Agosto de 2010 - 08:17

A um mês do lançamento de "Nosso lar", versão para as telas do best-seller espírita homônimo, almas do além, que têm mobilizando olhares no cinema nacional desde o blockbuster "Chico Xavier", resolveram encarnar no 38º Festival de Gramado, dentro e fora da briga pelos Kikitos. E, curiosamente, todos os "cavalos" escolhidos para "receber" o tema têm natureza documental. Na noite desta terça-feira, médiuns vão trazer relatos sobre um dos mais violentos conflitos da História brasileira para "O Contestado - Restos mortais", do catarinense Sylvio Back, um dos oito concorrentes ao prêmio de melhor longa-metragem brasileiro. No domingo, num frio cortante na Serra Gaúcha, manifestações de outro mundo se fizeram sentir em "O último romance de Balzac". Nele, o baiano Geraldo Sarno (diretor do seminal "Viramundo") aborda os bastidores da criação de um livro psicografado nos anos 60 que teria sido ditado pelo autor de "A comédia humana". Na leva hors-concours, Gramado escalou para amanhã "As cartas psicografadas por Chico Xavier", da documentarista Cristiana Grumbach.

  

- A inserção do relato de médiuns em "O Contestado - Restos mortais", e que perturba e conturba a narrativa, serve para borrar as fronteiras draconianas entre documentário e ficção - diz Sylvio Back. - O transe, como uma insondável camada do inconsciente coletivo e da História do homem, matéria-prima de altas indagações no campo da física quântica, é a mais pura e límpida poesia. Não sou religioso, nem cientista. Só cineasta e poeta.

" A inserção do relato de médiuns em "O Contestado", e que perturba e conturba a narrativa, serve para borrar as fronteiras draconianas entre documentário e ficção "

Exibido pela mostra É Tudo Verdade, em abril, o novo longa de Back revê as memórias mais sangrentas da Guerra do Contestado (1912-1916) a partir dos relatos de 30 pessoas que buscam, por meio de um ritual de comunicação com os mortos, uma conexão com participantes do conflito. O recurso adotado por Back vem gerando polêmica desde sua primeira exibição pública, há quatro meses: há quem defenda que tudo não passa de encenação teatral.

- Como o cinema é uma linguagem, e o filme, uma tela de mil olhos, cabem todas as vertentes e interpretações, mesmo uma inaudita como o discurso mediúnico, ainda que pareça >ita<kitsch, encenado ou manipulado. Tudo para dotar a narrativa de um tônus ficcional, estrangeiro ao documentário tal como é reconhecido, incorporando verdades e mentiras num mesmo canal que deixe o espectador desarvorado, sem segurança ética e estética - diz Back.

Geraldo Sarno esclarece que "O último romance de Balzac" foi concebido muito antes da febre espírita que atiça produtores e exibidores. Depois de quase 3,5 milhões de pagantes contabilizados por Chico Xavier, o filão se tornou sinônimo de salas lotadas. Mas Sarno diz que não deixou interesses comerciais guiarem o projeto.

- A questão não é o espiritismo, e sim a elaboração artística, o lado misterioso da criação - afirma o diretor, cujo filme lembra a saga de Waldo Vieira, que, há 45 anos, teria psicografado "Cristo espera por ti", cujo autor seria Honoré de Balzac (1799-1850). - O filme mostrar o pastiche ao falar de um médium que escreve um livro à la Balzac e de um psicólogo (Osmar Ramos Filho) que dedica dez anos ao estudo dessa obra. É uma forma de abordar um processo que não é teórico. É a força da criação estética.

Sarno recorre a Guimarães Rosa (1908-1967) para explicar que o fascínio por Balzac vai além do modismo mercadológico com a temática espírita:

- Rosa disse uma vez em entrevista a seu tradutor alemão que Balzac é um escritor do Sertão, por tratar da essência da alma humana. Sendo assim, estando com Balzac, eu estou na minha matéria.

Fora da peleja por Kikitos, "As cartas psicografadas por Chico Xavier" põe a morte em xeque ao reunir casos de famílias que perderam entes queridos e receberam relatos do além como consolo de sua dor. Conhecida pelo documentário "Morro da Conceição", de 2005, Cristiana já havia apresentado seu longa em Paulínia.

Com encerramento agendado para sábado, o festival segue hoje com a exibição de "História de um dia" (Venezuela), de Rosana Matecki, na mostra competitiva de filmes latino-americanos. O longa de Back é o concorrente brasileiro do dia. Até agora, o único favoritismo envolve o trabalho da atriz Malu Galli em "180°", de Eduardo Vaisman, exibido no sábado.