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Sidrolandia

Com recorde de inscritos, Enem é posto à prova mais uma vez

A multiplicidade de funções não é o único aspecto do exame que merece atenção. O histórico do Enem é repleto de polêmicas

Terra

05 de Novembro de 2014 - 10:53

O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) levará 8,7 milhões de alunos à prova, um recorde, neste final de semana, nos dias 8 e 9 de novembro. Criado em 1998 com o intuito de avaliar o aprendizado de estudantes de educação básica, o exame teve seu escopo ampliado em 2008, quando passou também a servir de modalidade de ingresso em muitas universidades. E é nessa duplicidade de funções que reside a crítica de alguns educadores.

A cada ano, mais universidades adotam o Enem como sistema único de seleção. Ou seja, não fazem uma prova de vestibular específica, mas utilizam a nota que os candidatos tiveram no exame para definir os selecionados.

Para Maria Márcia Sigrist Malavasi, professora da Pós-Graduação em Educação da Unicamp, foi um erro passar a utilizar o Enem como um vestibular nacional. “Considero uma péssima decisão, pois o exame deveria avaliar a qualidade do ensino médio no Brasil, o que demanda outros parâmetros de avaliação”, opina.

A educadora acredita que a seleção ideal para o ingresso em uma instituição de ensino superior deveria ser mais personalizada e considerar outros aspectos além da prova, a exemplo do que acontece em outros países. “Deveria ser levado em conta a região, o curso e o percurso do estudante, como em um país desenvolvido, não em um exame realizado em um único dia”, acrescenta.

Já o professor Ocimar Munhoz Alavarse, da Faculdade de Educação da USP, pensa que, no caso das universidades federais, essa prática significa um avanço. “A universidade pública federal é do povo do Brasil, portanto, por esse ponto de vista, ter uma prova só é mais democrático”, pontua.

Qualidade do ensino médio

A avaliação da qualidade de ensino das instituições é outro ponto destacado por Maria Márcia Sigrist Malavasi, da Unicamp. “Para isso, seria necessário analisar como estão as condições das redes municipal, estadual e privada, estudar o currículo, a quantidade de professores e outros pontos”, afirma.

Já Alavarse aceita questionar se, de fato, o Enem pode avaliar a qualidade do ensino, mas não descarta a validade do exame. “Seus resultados medem aquilo que, de alguma forma, deve ser medido a respeito do que as escolas devem trabalhar com seus alunos. Mas claro que há outros resultados a serem buscados”, pondera.

As funções do Enem não param por aí. O exame ainda pode ser usado para conseguir a equivalência ao ensino médio e para a obtenção de bolsas no Prouni (Programa Universidade para Todos). Sua realização já chegou até a ser necessária para o cadastro no programa Ciência sem Fronteiras, exigência derrubada pela justiça. “O problema é se esse exame atende completamente a esses usos. Ele realmente é capaz de medir tudo isso?”, questiona Alavarse.

Histórico de problemas

A multiplicidade de funções não é o único aspecto do exame que merece atenção. O histórico do Enem é repleto de polêmicas. Em 2009, após a confirmação de indícios de que a prova havia sido vazada, o então Ministro da Educação, Fernando Haddad, optou por remarcar a data da prova.

No ano seguinte, foram identificados erros de impressão em um dos cadernos da prova, e os alunos prejudicados foram convocados para refazer o teste em outra data - ocasião que contou com um alto número de abstenções.

Em 2011, alunos de um colégio particular de Fortaleza tiveram acesso antecipado a algumas questões aplicadas no exame. Os estudantes da instituição de ensino em questão tiveram de refazer as provas.

Para a professora Márcia Sigrist Malavasi, esses problemas refletem a dificuldade que envolve a organização de um exame dessa magnitude. “Claro que quando isso acontece não é bom, mas a logística de uma aplicação dessas não é fácil”, lembra. “Isso acaba sendo o que a mídia destaca mais, mas não é o primordial. A qualidade do ensino e do exame é o que importa”, conclui.