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Sidrolandia

Família de MS alega "diferença cultural" para impedir amputação em criança

Midiamax

19 de Julho de 2011 - 10:34

O tratamento de um tumor na perna de uma menina indígena de 8 anos, de uma aldeia localizada no município de Dourados pode ser suspenso por vontade de seus familiares. Eles alegam que podem curá-la do câncer por meio de tratamento espiritual feito com o pajé da aldeia onde a criança vive.

Internada no CETOHI (Centro de Tratamento Onco-Hematológico Infantil), que fica no Hospital Regional Rosa Pedrossian, no dia 25 de junho, após passar por internamento em Dourados. Depois de exames em Campo Grande, o médico Marcelo Souza chamou os pais e comunicou a necessidade de fazer uma amputação na perna da menina, devido à gravidade do tumor.

Ao saber que a filha precisa da intervenção cirúrgica, os pais recusaram. Depois de uma explicação detalhada do estado avançado da doença e das chances de cura, a mãe da menina chegou a autorizar. Como não é alfabetizada, foi colhida sua impressão digital do polegar no documento.

“Para mim, não existe diferença de índio e não índio. Fiz um juramento como médico de salvar vidas, independente de etnia ou outro fator, por isso vamos continuar conversando com a família para que tudo ocorra como tem que ser, pela saúde desta criança”, diz o médico.

No entanto, uma semana depois da mãe autorizar o prosseguimento do tratamento, cujo próximo passo era amputar a perna da menina, o avô materno e o cacique da aldeia onde a família mora procuraram o médico Marcelo Souza “desautorizando” a continuidade do procedimento médico, que era a quimioterapia, oferecimento de antibióticos, morfina (contra dor) e a intervenção cirúrgica.

Pajé no Hospital

“Eles alegaram que, com o tratamento espiritual do pajé, a menina seria curada e queriam tirá-la do hospital. Mas para que ela saia de lá, eu preciso dar alta médica. Ao invés disto, tive uma conversa com eles, passei a gravidade do caso e os convenci a trazer a liderança religiosa até o hospital para este tratamento espiritual da crença deles”, explica o oncologista.

Além de convencer a família a trazer o pajé até o Hospital Regional, o médico também conseguiu convencer a continuidade do oferecimento da morfina, antibióticos e dieta alimentar via sonda para a criança. O pajé ainda não esteve no hospital para os rituais.

Enquanto prossegue o tratamento, a menina tem como acompanhante familiar um avô. Por um tempo, um tio ficou na unidade hospitalar, este que deve ficar com a menina, já que a mãe alegou não ter condições de ficar com ela, pois tem um bebê ainda sendo amamentado.

A negativa da mãe em voltar para a aldeia com a criança amputada tem amparo no fato de que, nos costumes de certas etnias indígenas, quando uma pessoa sofre amputação , seria porque 'carrega alguma maldição de antepassados'.

O caso da menina de 8 anos internada no Regional não é isolado na medicina do Estado. Um garoto, chamado Gilson, que também era indígena, precisou de um procedimento cirúrgico para retirada de um membro.

Os familiares não aceitaram de imediato e caso foi parar na Fundação Nacional do Índio, na tentativa de convencimento da família para autorizar, porém a instituição se manifestou que a decisão era familiar, já que envolvia questões culturais étnicos. Depois a família aceitou, o procedimento foi feito, mas, talvez, pela demora do procedimento, a criança acabou morrendo.

Sangue

As questões religiosas influenciam nos tratamentos médicos mais do que as pessoas imaginam. Um caso clássico é o das Testemunhas de Jeová. A posição religiosa em relação ao uso do sangue na medicina e na alimentação é proibida.

Casos de transfusão de sangue ou de seus componentes e em quase todas as cirurgias, por precisar da técnica, não são permitidas. Medicamentos que tenham sangue também são vetados.