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Sidrolandia

Workshop promove palestra sobre melhoria na alimentação indígena

Assessoria

15 de Junho de 2012 - 14:51

Está sendo realizado até esta sexta-feira, dia 15 de junho, na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), o 15º Workshop de Plantas Medicinais. Na manhã de ontem, a professora Dulce Ribas, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), esteve no evento apresentando sua experiência na terra indígena de Buriti, que contém oito comunidades indígenas, e fica entre os municípios de Dois Irmãos do Buriti e Sidrolândia.

Uma das ações desenvolvidas por professores, estudantes e voluntários nessas comunidades é o projeto “Semeando e colhendo saberes Terenas”, para incentivar a produção e o consumo de frutas e hortaliças nas aldeias.

Dulce Ribas começou a trabalhar nesta área em 1995, pesquisando os hábitos alimentares e a qualidade da nutrição dos indígenas Terena que ali habitam. Logo diagnosticou o quadro de insegurança alimentar, que prejudicava não só o desenvolvimento das crianças, mas que comprometia também a qualidade de vida dos adultos.

“Do ponto de vista calórico, a alimentação deles era adequada. Mas é uma alimentação insatisfatória em nutrientes e minerais. Verificada a insegurança alimentar nós tínhamos que fazer alguma coisa. Porque nós acreditamos que universidade não tem só que investigar, conhecer, constatar. Temos que ter o compromisso, ser parceiros da comunidade na busca de soluções para minimizar essa condição”, argumentou Dulce.

A partir disso, muitos projetos foram desenvolvidos nas oito aldeias da terra indígena Buriti. Com o projeto “Semeando e colhendo saberes Terenas” o grupo conseguiu recursos junto ao CNPQ para estruturar três hortas comunitárias em escolas nas aldeias Barreirinho, Lagoinha e Água Azul.

Os voluntários fazem visitas às comunidades toda sexta-feira e sábado, em todos os meses do ano. Nas visitas, são desenvolvidas oficinas para crianças, jovens, adultos e idosos. As crianças fazem oficinas de desenho, de artes e de sentidos: primeiramente elas observam as frutas e legumes, depois desenham e moldam essas frutas, e por fim experimentam o alimento.

Os jovens fazem estas mesmas oficinas, mas também participam dos cuidados da horta. E não é só isso, eles são convidados a pesquisar e descobrir algumas receitas tradicionais da cultura terena com as mulheres mais velhas de suas famílias.

Os adultos trocam informações sobre o cultivo e colheita das frutas e hortaliças, e além disso fazem oficinas de culinária, onde aprendem seus pratos típicos e também novas formas de aproveitar os frutos da horta.

Apesar de os projetos serem financiados por órgãos de fomento à pesquisa, Dulce ressalta que os trabalhos na terra Buriti só são viabilizados porque há professores, estudantes e profissionais que trabalham voluntariamente. A professora faz questão de enfatizar a importância de ter uma equipe multidisciplinar e unida. Assim, é possível iniciar a pesquisa antes da aprovação do projeto, e se pode manter a ação mesmo depois de acabar o financiamento. “Somente através do trabalho contínuo é possível criar um forte vínculo com a comunidade”, afirmou Dulce.

Problemáticas para a segurança alimentar

Segundo a professora Dulce, os Terena são um povo indígena que estabeleceu contato interétnico pacífico e neste contato absorveu hábitos alimentares dos não-indígenas. Nos comércios dentro da aldeia os alimentos com melhor venda são os salgadinhos, por serem baratos e agradar o paladar da criançada. “Hoje a indústria de alimentos não quer perder nenhuma fatia do mercado, então eles criam produtos pra classe A, B, C e D. Lógico que para fazer um produto mais barato, eles usam as piores matérias primas. Mas, nem o melhor salgadinho é bom para o organismo, é gordura e sal. Não existe o tal ‘rico em vitaminas’”, alertou a pesquisadora.

Ela ainda fez uma ressalva de que até a iniciativa pública para garantir a segurança alimentar da população indígena pode ser alvo de crítica. Segundo a professora dentro da própria cesta básica que os indígenas recebem tem itens inadequados, produtos enlatados e industrializados que foram escolhidos sem haver uma consulta sobre as preferências e necessidades da comunidade.

Com relação à produção de alimentos, não somente a tradição cultural como o próprio empobrecimento do solo inviabilizam a produção nos mesmos padrões dos agricultores não-indigenas. Dulce ainda protestou que os projetos de governo para incentivar a produção de alimentos nas aldeias são inadequados ou com falhas, “A semente chega após a época de plantio, ou sem condições de ser plantada, ou falta calcário na terra, ou vem a semente mas não vem o óleo para o trator. Sempre falta alguma coisa”, avaliou.

Segundo a professora Dulce, a questão da expansão das terras indígenas também está relacionada com a precaridade alimentar desses povos. “Falta terras para as roças, falta terra para as matas, falta mata para os animais. Os terena veem a mata e a terra de um jeito diferente que nós. A mata é mística, é sagrada. Eles não trabalham com hortas de plantas medicinais, eles precisam ir na mata buscar a planta que cura, pois essa planta tem que viver na mata”, relatou.

Ao explicar essas dificuldades, Dulce ainda elogiou a resistência dos povos indígenas e apontou para os caminhos que estão sendo traçados: “Os Terena são um povo agricultor por excelência, então apresentar a eles o plantio de hortaliças e frutas não seria algo ‘de fora’ da sua cultura, mas um diálogo com a tradição deles. Nosso trabalho está sendo de valorizar o cultivo e consumo de alguns alimentos que eles já conheciam e apresentar alguns alimentos novos”.