Logomarca

Um jornal a serviço do MS. Desde 2007 | Quarta, 19 de Junho de 2024

Economia

Clima e investimentos fazem safra de milho superar soja pela 1ª vez em MS

G1

01 de Setembro de 2012 - 09:14

A produção de milho na safra 2011/2012 vai ser superior à colheita de soja pela primeira vez nos 34 anos de história de Mato Grosso do Sul: serão 6,1 milhões de toneladas de milho, contra 4,6 milhões da soja, segundo projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

O consultor em agronegócios da BM&F, João Pedro Cuthi Dias, diz que uma série de fatores contribuiu para que a chamada "safrinha" se transformasse em uma "supersafra". "Primeiro uma situação excepcional do clima. Nunca houve uma distribuição tão boa de chuvas e no período certo. Some a isso o fato dos produtores estarem capitalizados e terem investido nas lavouras e ao início um pouco mais cedo do plantio", explica.

Depois de três meses de retração, o Produto Interno Bruto (PIB) do setor agropecuário voltou a crescer no 2º trimestre deste ano, com uma taxa de 4,9%. A expansão foi a maior entre os setores da economia brasileira, que cresceu 0,4% no período, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (31) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Produção de grãos em Mato Grosso do Sul

Safra

Soja

Milho

2002/03

4103,8

3039,7

2003/04

3324,8

2353

2004/05

3862,6

1396,9

2005/06

4445,1

2241

2006/07

4881,3

2951,4

2007/08

4569,2

3524,3

2008/09

4179,7

2311,9

2009/10

5307,8

3737,3

2010/11

5169,4

3423,2

2011/12*

4628,3

6080,2

* Projeção
Fontes: Infoagro e Conab

O presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), Almir Dalpasquale, diz que, além de uma colheita excepcional, os produtores da "safrinha" de milho ainda foram beneficiados pela alta dos preços nos mercados nacional e internacional, em decorrência da quebra de safra da produção dos Estados Unidos, o maior produtor mundial da cultura.

"Além de uma produtividade média que deve ficar em torno dos 4.700 quilos por hectare, 45,3% superior a do ciclo passado, estamos tendo a sorte de casar a produção recorde com bons preços no mercado internacional. Isso para o produtor está sendo muito bom", comenta.

Os produtores rurais Carlos e Sandro Brauner, que administram uma fazenda no município de Bandeirantes, a 66 quilômetros de Campo Grande, confirmam os bons resultados da "safrinha" de milho. Eles cultivaram 1.300 hectares com o grão e colheram em média 98 sacas por hectare, o equivalente a 5.880 quilos – incremento de aproximadamente 63% em relação à produtividade registrada em 2010/2011, quando foram colhidas cerca de 60 sacas por hectare.

Soja no verão
Do total produzido pela família Brauner, 30% já estavam comercializados. O restante da produção segue estocado na propriedade para comercialização futura. Apesar dos bons preços no mercado e da produção recorde da "safrinha", pai e filho afirmam que vão continuar a plantar soja no ciclo de verão, deixando o milho para a segunda safra.

"Vamos continuar a plantar soja porque os preços estão muito atrativos. Atualmente a saca está sendo comercializada na casa dos R$ 80 e os contratos futuros estão fechados a cerca de R$ 60. Então compensa muito. Além disso, não é possível migrar tão rapidamente de uma cultura para outra. É preciso um suporte melhor", explica Sandro Brauner.

O presidente da Associação Campo-Grandense das Revendas Agrícolas (Acra), Milton Folino, concorda com os produtores. Com base nas vendas de insumos, ele acredita que não deve haver aumento da área plantada com milho no estado na safra de verão em detrimento das áreas cultivadas com soja.

"O produtor faz com pelo menos 30 dias de antecedência do começo do plantio a compra das sementes e insumos para a produção. Atualmente cerca de 80% dos produtos já foram comercializados e retirados. O agricultor deixa uma reserva de cerca de 20% nas lojas, para o caso de precisar. Como essa compra foi feita em um momento muito bom dos preços da soja, o investimento na safra de verão foi em grande parte voltado para a cultura", analisa.

Com os preços do milho e da soja em alta, o presidente da Acra diz que o mercado de insumos está aquecido e que o produtor rural animado com os bons resultados da "safrinha" está disposto a investir nas lavouras, apesar da alta de 10% a 20% nos preços dos produtos registrada nos últimos meses.

Reflexos negativos
A alta no preço do milho, mesmo com a produção recorde na safrinha, e da soja, em razão da quebra da produção americana, apesar de benéfica para os agricultores, segundo o presidente da Aprosoja/MS, provoca também reflexos negativos para outros segmentos do agronegócio, que utilizam esses produtos como matéria-prima, como os criadores de suínos e aves, que usam ração feita a partir destes grãos.

"Estamos falando já há algum tempo da preocupação com esses setores. Estamos alertando porque é preciso que o governo busque uma alternativa para diminuir os impactos da alta do preço do milho e da soja para esses setores. É preciso agir agora, porque tentar resgatar esses setores depois é mais complicado", comenta Dalpasquale.

Estamos alertando porque é preciso que o governo busque uma alternativa para diminuir os impactos da alta do preço do milho e da soja para esses setores [criadores que usam grãos como matéria prima]"

Almir Dalpasquale, presidente da
Associação dos Produtores de Soja

Issao Kurokawa, diretor da Cooperativa Agrícola Mista de Várzea Alegre (Camva), maior produtora de ovos de Mato Grosso do Sul, afirma que os produtores estão acumulando seguidamente prejuízos. "Hoje em cada dúzia de ovos nosso prejuízo chega a R$ 0,25. Quando calculamos isso baseados na quantidade de dúzias por caixa, que é de 30 unidades, o valor é ainda maior, R$ 9".

Kurokawa diz que, por mês, a cooperativa consome cerca de 24 mil sacas de milho, para produzir em sua fábrica a ração que é consumida pelas aves. A ração é composta por um percentual que varia de 60% a 50% de milho e 23% de farelo de soja. A perspectiva, conforme ele, é que o aumento no preço do milho e da soja, seja repassado em um prazo máximo de 60 dias para os consumidores.

"Vamos ter que repassar, porque não vamos conseguir manter desse jeito. Antes de iniciar a colheita da safrinha do milho o preço da saca variava de R$ 18,50 a R$ 20. Hoje, no fim de safra, com uma produção recorde, o que deveria levar os preços a cair, ocorreu o contrário, o valor subiu para R$ 26 em média. É uma variação de 30%. Se isso ocorreu no pico de safra nada indica que com o fim da colheita esses valores vão cair", analisa.

Já o presidente da Associação Sul-Matogrossense de Suinocultores (Asumas), Arão Antônio Moraes, diz que o cenário de dificuldades que os criadores vinham enfrentando em razão da alta no custo da ração fornecida aos animais começa a se alterar gradativamente com a elevação no preço da carne. "A ração representa 80% do nosso custo de produção", comenta, completando que a expectativa dos produtores é que nos próximos meses o panorama para a atividade melhore.