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Economia

O Brasil ainda vai demorar dois anos para voltar a crescer

Istoé

29 de Junho de 2012 - 16:21

Aos 81 anos recém-completados, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem mantido uma agenda bastante agitada.

Nas últimas semanas, ele viajou pelos quatro cantos do mundo. Esteve na China, Japão, Europa, Estados Unidos, México, Argentina e agora pretende parar um pouco no Brasil.

Sua próxima viagem internacional deverá ser no dia 10 de julho, quando irá receber, em Washington, na Biblioteca do Congres­so dos Estados Unidos, o prêmio John W. Kluge, considerado o Nobel das Ciências Sociais.

Mesmo assim, na quinta-feira 28, ele esteve em Belo Horizonte para participar de um seminário, e hoje está em São Paulo.

“Eu mesmo não sei como aguento tanto”, afirmou, em entrevista exclusiva para o blog.

No domingo dia primeiro de julho, quando o Plano Real estará comemorando 18 anos, FHC não planeja nenhuma comemoração, até porque, segundo ele, a maioridade só vale mesmo quando completar 21 anos.

“A calça ainda está curta na perna”, disse.

Para FHC, o Real já se incorporou à história do Brasil.

“O objetivo do Real era estabilizar a economia e modernizar o Estado, o que foi feito, e agora o grande desafio é crescer. O governo tem que continuar modernizando o Estado para o País voltar a crescer”.

FHC não vê riscos, agora, de uma volta da inflação. Esse problema não existe, pelo menos agora.

“Não está visível um problema de inflação no momento. Não há pressão inflacionária hoje no mundo”.

O grande desafio é mesmo o crescimento. Diante da crise global, FHC prevê que o País só volte a crescer a taxas mais elevadas, dentro de dois anos. Ou seja, a partir de 2014

“O crescimento só deve ser retomado dentro de dois anos, mesmo assim supondo que o governo faça tudo direito. Neste ano e no outro, o crescimento será baixo.”

E o que significa fazer tudo direito?

“Depende da capacidade que nós tenhamos de dar impulso ao investimento e de termos regras claras na economia para atrair investimentos de fora. Como o País tem petróleo e há muita necessidade de o País investir em infraestrutura, como em aeroportos, é possível voltarmos a crescer em 2014, mas tem que ter regras claras”.

Mesmo assim, FHC não acha que o País tenha condições de crescer acima de 4%.

“A taxa de poupança do País é muito baixa, o que torna muito difícil o País crescer acima de 4%. Os 7,5% de crescimento do PIB (em 2010) foram obtidos em comparação a zero.”

FHC concorda, no entanto, que o crescimento menor do País se deve, em grande parte, à crise global, que não foi fabricada pelo Brasil, mas que respinga em todos os emergentes. Com todas as viagens e os contatos internacionais, o diagnóstico de FHC sobre a crise é preocupante.

“A crise é tão grande que para sair dela só mesmo recorrendo a Schumpeter (Joseph Schumpeter, considerado um dos mais importantes da primeira metade do século XX, que defendia a inovação como o principal motor do capitalismo) para criar uma nova força de investimento do mundo, e só os americanos, os alemãos e os chineses podem proporcionar isso. A Alemanha pede para voltar a austeridade, mas não se sabe se essa é a saída. Só os americanos conseguiram sair um pouco da crise, mas mais ou menos. O problema não é só a crise financeira, mas a quebradeira geral que pode vir depois.”

Para o ex-presidente, a crise vai ser longa, e todos os países serão atingidos.

“O Brasil tem condições de navegar. O País tem reservas, mas precisa atacar os problemas como a necessidade de ampliar os investimentos em infraestrutura e melhorar o sistema tributário. Mas o Brasil não vai a pique. O governo tem recursos e máquina estatal tem condições de evitar uma queda maior do crescimento. A velocidade do crescimento será menor.”

FHC não deixa de criticar indiretamente o governo de seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, por não ter priorizado os investimentos em infraestrutura.

“O Brasil não aproveitou o período de aproveitar o período de bonança para avançar na infraestrutura”.

O ex-presidente também critica o fato de o País ter adotado medidas contra o capital estrangeiro:

“O governo tem preconceito ideológico contra o capital flutuante. No Japão e na China, me perguntaram se o que está acontecendo na Argentina (de adoção de medidas restritivas ao capital estrangeiro) poderia acontecer no Brasi. Há dúvidas”.

Sobre às eleições municipais deste ano em São Paulo, FHC prefere não fazer um prognóstico, apesar de achar que José Serra, candidato do seu partido, o PSDB, tem hoje mais probabilidades de sair vitorioso.

“Eleição só se sabe no dia. Eu mesmo já perdi uma eleição ganha. O Serra tem muita possibilidade.”

Em relação aos adversários, FHC acha que a principal disputa deve ser mesmo com Fernando Haddad, candidato do PT, apesar de Celso Russomano está no segundo lugar nas pesquisas.

“É difícil imaginar que os outros candidatos resistam. O Haddad tem mais estrutura, apesar de estar tendo muita dificuldade de crescer.”

Sobre a aliança de Lula com Paulo Maluf, FHC minimiza os efeitos eleitorais dessa parceria:

“Essa aliança pode ter afetado o ânimo dos petistas, mas eleitoralmente temos que ver”.

E quem será o candidado do PSDB à Presidência em 2014, se Serra perder a eleição?

“A probabilidade maior é do Aécio Neves, mas o Serra tem um nome muito forte nacionalmente. O Aécio ainda precisa fortalecer seu nome nacionalmente. A definição ainda está aberta, mas se o Serra ganhar as eleições, acho difícil ele sair da Prefeitura”.