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Esporte

Tiago Nunes revisita a vida, revela mágoa com Petraglia e traça laço com Corinthians: 'Time do povo'

Em Orlando, nos EUA, treinador concede sua primeira entrevista exclusiva no Timão

Globo Esporte

19 de Janeiro de 2020 - 19:14

Tiago Nunes teve 60 dias entre o anúncio de sua contratação pelo Corinthians e seu primeiro dia de trabalho no CT Joaquim Grava, na reapresentação do elenco para 2020.

Uma de suas atividades foi procurar informações sobre a história do clube: títulos, ídolos, jogos marcantes. Aos 39 anos, o treinador buscou referências no passado para construir um futuro também vitorioso, conforme revelou nesta entrevista exclusiva – a primeira desde que assumiu o Timão.

– Dei uma estudada boa na história do Corinthians, desde sua fundação até as principais conquistas, os principais movimentos sociais que construíram essa trajetória. Entender um pouco do DNA corintiano. Vi de cabo a rabo os principais jogos, para me conectar com o clube.

– Quis chegar aqui entendendo um pouco do que o torcedor quer, do que o torcedor gosta. Para tentar ser esse cara que vai colaborar com a construção da história do clube. Não chegar aqui fora do ar, tentando fazer algo que não combine com o que o clube Corinthians construiu até esse momento.

Num dos trechos revistos pelo técnico, o meia Athos revelou que Tiago foi demitido do São Paulo de Rio Grande em 2016 depois de discutir e xingar um torcedor que, depois, ele descobriria ser um conselheiro importante dentro do clube. Tiago buscou trabalhos psicológicos para atingir o equilíbrio emocional.

Mas será que o cara explosivo ainda existe?

– Está enjaulado aqui. De vez em quando ele aparece. É que nem o Médico e o Monstro, sabe? (livro de Robert Louis Stevenson que virou filme em 1941). Está aqui, controlando, a frequência tem que manter baixa. Eu tenho já há algum tempo procurado meios de me conhecer, fui estudar, fui buscar ajuda profissional, autoconhecimento, para saber quais os gatilhos que despertam às vezes este estopim curto, e foi renovador para mim entender o porquê das coisas. Hoje estou bem, tranquilo, pleno, não só pelo momento profissional, mas principalmente pela base familiar. A base dá uma tranquilidade hoje para que, se nada der certo, eu possa voltar para minha casa, tenho um lugar onde poderei estar bem.

Outro trecho da reportagem mostra um depoimento do pai do jogador, Mucio da Silva Nunes, um apaixonado por rádios e também por futebol que revelou a sua paixão pelo Corinthians no passado.

– Estou no futebol por causa dele, a culpa é dele. Desde que me entendo por gente, o futebol está dentro da minha casa, meu pai me ensinou a amar rádio. E sempre que eu perguntava sobre qual era o time dele, ele dizia que no Rio Grande do Sul era um, mas que em São Paulo era o Corinthians. Eu perguntava: "Por quê?" Porque é o time do povo, ele dizia. Isso para mim sempre esteve presente: futebol, emoção e povo. Por isso fiz questão de entender o que é o Corinthians um pouquinho. Vim para o clube do povo. Quero viver a cada dia isso aqui da maneira mais intensa possível – disse o filho de seu Múcio.

A saída do Atletico-PR

Campeão de quatro títulos pelo Athletico-PR – estadual, Copa Sul-Americana, Copa Suruga e Copa do Brasil –, Tiago Nunes não deixou o clube da maneira como planejou. Sem acordo para renovar seu contrato, foi impedido por Mario Celso Petraglia (presidente do Conselho) de terminar o Brasileirão.

Uma nota oficial emitida pelo clube paranaense quando o técnico acertou com o Corinthians insinuou que Tiago não tinha gratidão pelo clube. Palavras que deixaram marca no treinador.

– Fiquei bem chateado. Criei um vínculo de amor com o Athletico-PR, principalmente com o torcedor e muitos colaboradores. Tenho uma gratidão genuína, gratidão pelo torcedor que me colocou como treinador, e deixamos um legado muito bonito lá. Sempre fui verdadeiro com o clube nas minhas ações. Fiquei chateado com a nota que foi emitida, mas não esperava nada diferente do presidente do Conselho, até porque é algo que já é histórico – disse, se referindo a Petraglia.

– Quando cheguei ao Athletico-PR, o presidente era xingado pelo torcedor em todos os momentos do jogo, inclusive eu publicamente algumas vezes fui defendê-lo e pedir que o torcedor não fizesse isso. O tempo passou, a gente conquistou, mudou o time daquela situação incômoda, e como já aconteceu com outras pessoas que lá estiveram, sempre que você diz "não" ao presidente, você acaba saindo como o anti-herói. Independente de qualquer coisa, sou muito grato ao torcedor – destacou Tiago.

Veja mais trechos da entrevista:

Site: O que te encanta no futebol?

– A emoção. Tudo o que gera emoção me encanta. Equipes, lances... Não só a maneira de jogar, mas todos os momentos do futebol que geram inspiração. Isso me encanta. Porque foi o que me motivou a ser apaixonado pelo jogo. Quando estou desenvolvendo o trabalho, quando estou envolvido com o grupo de jogadores, penso que a gente tem que gerar inspiração para as pessoas que estão nos assistindo. Eu estive sentado na arquibancada e o que eu queria era poder estar no lugar daqueles caras que estavam ali. Mesmo não tendo sucesso como jogador, hoje sou treinador e penso que nosso foco, nosso objetivo, é tentar retribuir a essas pessoas. Sem saber, a gente acaba mudando a vida, a trajetória de tanta gente, sendo uma história inspiradora.

Depois da vitória por 2 a 1 contra o New York City, você disse que o time às vezes é burocrático e tem medo de errar. Como tirar o medo de errar?

– Não só o Corinthians. Qualquer pessoa, em qualquer área, quando você enfrenta um novo desafio, o primeiro passo é fazer as coisas da maneira mais simples possível para que você não tenha que se expor de maneira demasiada. Você só consegue realmente colocar o coração no que faz quando está disposto a errar. Sem medo do julgamento. O que eu tenho tentado compartilhar com os atletas é que a gente faça da maneira mais genuína possível. Que a gente não se preocupe com a cobrança. Porque ela vai vir de qualquer maneira. Pelo simples fato de estarmos nesse nível, a cobrança faz parte, está no pacote. Mas que a gente possa através disso sermos melhores. Eu sei que a cobrança por resultados é iminente. Mas nós temos que terminar a trajetória no Corinthians, ou essa temporada, muito melhor do que iniciamos. Então esse é o objetivo. Crescer sem estabelecer limite.

No Athletico-PR você se apegou ao Lucho González, que foi como um porta-voz das suas ideias. Identifica no Corinthians referências a quem se agarrar?

– Muitos. Lucho é um jogador, mesmo antes de chegar no Athletico, muito vencedor. Com uma história de títulos e conquistas muito grandes. Mas aqui há os atletas remanescentes do título brasileiro (2017), das últimas conquistas dos Campeonatos Paulistas. O Cássio é um remanescente da conquista do Mundial. São caras que teê uma história muito vencedora e servem de inspiração para aqueles que chegam. Conhecem muito do Corinthians. Temos que dar sequência a uma história vencedora. Como a gente vai construir isso? Somente o tempo, os jogos, o dia a dia vão nos mostrar. A gente tem tentado se conectar muito para criar realmente um sentimento de parceria.

Uma de suas primeiras ações no Corinthians foi barrar Jadson e Ralf, dois jogadores muito vencedores. Ralf é o 14º jogador com mais jogos na história. Imagino que tenha sido difícil...

– Foi bastante difícil até porque são atletas que têm um histórico grandioso. Não só pela trajetória no Corinthians, mas dentro do futebol. Dois jogadores de seleção brasileira. Mas foi uma construção feita junto com a direção. A gente fez uma reunião no dia 21 de novembro do ano passado em que ficou definido. Inclusive os atletas e seus agentes foram comunicados disso. De maneira geral, não foi fácil. Mas o papel do treinador às vezes não é de tomar decisões populares ou que façam bem à popularidade. O papel do treinador é pensar no contexto coletivo e tomar decisões que ele acredita que possam ser o melhor para a construção de uma ideia de jogo. São atletas que têm muita qualidade, muita história. Tenho total respeito. Mas eu acredito que, pela característica de jogo que a gente quer implementar, não são as características que se enquadram mais no nosso modelo de jogo.

Muitas pessoas falam da sua boa didática, do seu tom professoral. Traz isso da vida acadêmica?

– Não só. Até porque penso que todo mundo, independente da formação acadêmica ou não, que se coloca numa posição de ensinar, ou de passar conhecimento, ou de compartilhar conhecimento, tem o papel do professor. A minha qualidade profissional e de vida melhorou muito quando me aceitei como professor. O futebol muitas vezes é relutante em aceitar aquelas pessoas que não tiveram uma vida pregressa como atleta. Passei um bom tempo tentando imitar muitas vezes posturas que não eram realmente as minhas. E me encontrei quando entendi que o meu papel é de professor. É de ensinar, de compartilhar, de melhorar o cara que está perto de mim. Tem sido o sentido das nossas conversas.

Os jogadores têm elogiado internamente...

– Vejo que hoje a gente tem um certo problema que o jogador tem carecido muito de roteiro. Recebem a informação mastigada, pronta. Eu sou um cara que penso que a gente tem que instigar. Construir juntos. Fazer com que o atleta construa e faça porque ele entendeu. Porque ele acredita naquilo. Então o meu papel de professor tem sido esse. De tentar compartilhar as informações. Mas que eles possam fazer aquilo que a gente está pedindo porque eles compartilham e comungam do mesmo pensamento.

Cássio tem bom potencial para evoluir o jogo com os pés?

– Potencial de crescimento de cada um é algo individual. O que a gente vai se esforçar ao máximo, não só pra ele, mas pra todos os atletas. É criar o máximo de repertório de informações. De estímulo, de confiança. Para que eles possam fazer com naturalidade. O goleiro é uma posição especial e, hoje, com a exigência do jogo, não só com a construção desde trás, mas no sentido de você buscar superioridade numérica em relação ao adversário, é importante ter um jogador a mais que possa construir. Uma herança que a gente vem trazendo desde o futsal, onde o goleiro começou a ser um jogador a mais de linha. É estimular, dar confiança e ver dentro das limitações que ele possa apresentar o que é mais seguro para ele.