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Caos na organização de megashow pode gerar enxurrada de ações

Fãs de Guns N’ Roses ficaram presos na BR-262 e perderam show; má organização pode gerar processos.

Correio do Estado

11 de Abril de 2026 - 09:27

Caos na organização de megashow pode gerar enxurrada de ações
Fila de veículos chegou a mais de 10 km de distância do autódromo - Daiany Albuquerque

Após milhares de fãs terem perdido o show da banda americana Guns N’ Roses na noite de quinta-feira, Campo Grande teve expostos problemas na mobilidade urbana para receber eventos desse porte e mau planejamento na logística viária deve acumular diversos processos judiciais contra as empresas organizadoras e os órgãos públicos. Essa situação pode gerar uma enxurrada de ações judiciais.

Com estimativa aproximada de 40 mil pessoas, já era esperado pelas autoridades um fluxo intenso de veículos na BR-262, o único acesso ao Autódromo Internacional Orlando Moura.

Tanto que, dias antes do evento, ocorreu uma reunião entre todas as forças de trânsito municipais, estaduais e federais, justamente para alinhar o planejamento viário para a região. Contudo, as coisas saíram do controle.

Em dias normais, o deslocamento de carro do centro de Campo Grande até o autódromo é de aproximadamente 30 minutos, mas, na quinta-feira, o tempo estimado do trajeto chegou a ultrapassar cinco horas.

Para conseguir chegar a tempo no local, muitos tiveram que descer do veículo em que estavam e percorrer dezenas de quilômetros a pé ou de moto por aplicativo.

Para piorar, milhares não conseguiram chegar e perderam a oportunidade de assistir de perto uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o que resultou em inúmeros relatos nas redes sociais.

O professor do curso de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Sandro Oliveira explica que os casos enfrentados pelo público na noite de quinta-feira devem ser analisados sob a ótica do Direito do Consumidor e do Direito Administrativo.

Para ele, a situação trata-se de falha na prestação de serviço, o que atrai a responsabilidade objetiva da organização do evento.

“Quem não conseguiu assistir ao show pode pleitear restituição do ingresso, além de danos morais e materiais. Já nos casos envolvendo problemas de trânsito e logística urbana, é possível também a responsabilização do Estado, desde que demonstrado que houve falha no planejamento ou na execução do serviço público”, disse.

Vale destacar que a Secretaria Executiva de Orientação e Defesa do Consumidor de Mato Grosso do Sul (Procon-MS) iniciou procedimento de investigação preliminar para averiguar eventuais responsabilidades da empresa promotora do evento.

Depois de notificada, a organizadora terá 20 dias para apresentar um posicionamento.

O advogado André Borges disse que a situação foi grave, prejudicando inclusive a imagem da cidade para aqueles que vieram de fora apenas para assistir ao show. Além disso, destacou que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) pode apurar de quem foi a falha.

“Existe um único órgão que pode investigar amplamente de quem foi a falha, que é o Ministério Público, a quem cabe, essencialmente, a defesa da ordem jurídica e que representa todos, especialmente os consumidores lesados”, afirmou o especialista jurídico.

MOBILIDADE

Para o arquiteto e urbanista Fayez José Rizk, o evento foi um fracasso e algumas lições devem servir de exemplo para o futuro. Em especial, o especialista afirma que a mobilidade urbana deve ser levada mais a sério pelas autoridades públicas nas organizações e que o insucesso da logística era esperado.

“Mobilidade urbana não é só trânsito. Dito de maneira diferente, trânsito não se confunde com mobilidade urbana, é apenas um componente. Mas esse é um conceito desconhecido pela maioria das autoridades, e a realidade é que nem a prefeitura, a quem cabe a planejar, operar e fiscalizar essa mobilidade, tem realmente um departamento de mobilidade urbana. Aliás, nem o Estado tem, diga-se de passagem”, pontuou.

Um outro especialista na área de Arquitetura e Urbanismo, o profissional Ângelo Arruda afirma que Campo Grande tem capacidade para receber eventos deste porte, mas tudo requer planejamento prévio e boa execução.

De acordo com ele, o maior desafio estrutural da Capital para episódios como este é o estacionamento. A solução de Arruda era ter limitado uma área específica da cidade distante do local do show para acomodar os carros e transportar o público por meio de ônibus particulares.

Por fim, o especialista disse que o lugar ideal para receber eventos neste formato é o Estádio Universitário Pedro Pedrossian, o Morenão, mas que está impossibilitado em função das obras inacabadas e da situação de abandono.

VERSÕES

A Polícia Rodoviária Federal (PRF), principal responsável pelo planejamento viário e fiscalização no dia do evento, indicou que o congestionamento quilométrico no único acesso ao Autódromo Internacional Orlando Moura foi causado por culpa das decisões da organização do show.

Conforme a instituição, estavam previstas múltiplas vias de acesso aos estacionamentos, com entradas simultâneas de veículos e fluxo contínuo, mas teria acontecido o contrário na quinta-feira, destacando quatro pontos para que a situação saísse do controle e resultasse no aumento do congestionamento.

São eles: houve apenas uma via efetiva de acesso aos estacionamentos, com entrada de veículos de forma individualizada; controle de acesso com leitura de QR code na entrada, medida previamente desaconselhada pela PRF, por provocar filas; não havia sinalização adequada para orientar os condutores; e a abertura dos estacionamentos ocorreu com atraso em relação ao horário divulgado.

Por sua vez, a organização colocou a culpa do caos nos órgãos públicos, já que “a organização privada não possui competência legal para intervenção em rodovias federais ou no sistema viário urbano”, trouxe nota enviada pela assessoria de imprensa horas depois do ocorrido.

A Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), que também participou do debate envolvendo as forças viárias, limitou-se a dizer que “todas as forças de trânsito atuaram de forma conjunta ao longo da operação, buscando garantir a segurança viária e a melhor fluidez possível diante do elevado número de veículos concentrados em um mesmo horário”.

Por último, o Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul (Detran-MS) explicou que os agentes da instituição apenas apoiaram a ação coordenada pela PRF e, por isso, não se posicionariam oficialmente sobre o caso.

RELATOS

O caos na entrada do show prejudicou pessoas como Renata Nascimento, de 44 anos, que saiu de casa com sua filha e marido em direção ao autódromo às 17h30min, cerca de três horas antes do horário previsto para começar a exibição do Guns N’ Roses. Porém, de acordo com o relato dela ao Correio do Estado, o trânsito não permitiu que o show dos sonhos da família se concretizasse.

“Nós ficamos seis horas naquele trânsito horrível. Quase na metade, a gente ainda tinha um pouco de esperança que ia andar um pouco mais, e a gente só vendo o pessoal descendo a pé, largando os carros. A gente ficou bem chateado quando era mais ou menos meia-noite, nós estávamos perto da entrada do condomínio Terras do Golfe, foi aí que a gente parou e falou assim: ‘Bom, não vai adiantar a gente prosseguir’”, comentou.

Ela conta que sua filha Eduarda, de 14 anos, e seu marido Nelson, de 45 anos, estavam muito empolgados para acompanhar a exibição. A fim de receber os cerca de R$ 2 mil que gastou nos três ingressos, Renata afirma que vai acionar o Procon-MS na segunda-feira e espera receber o ressarcimento integral.

Outro relato que a reportagem recebeu foi sobre a situação de quem foi contratado pela empresa organizadora para trabalhar no evento como freelancer.

De acordo com a fonte, foram 120 pessoas contratadas e foi prometida condução para ir e voltar do autódromo, com começo do trabalho às 14h e término próximo da meia-noite.

“Ficamos horas sem água e não foi oferecida alimentação. Disseram que poderíamos usar apenas um banheiro químico, em condições precárias, depois liberaram outros, mas, ainda assim, em situação ruim.

Fomos contratadas para validar ingressos, mas muitas pessoas tiveram que assumir outras funções”, contou.

“Por volta da meia-noite paramos de trabalhar, já exaustos. Fomos orientados a aguardar o transporte de volta, mas o ônibus simplesmente não apareceu. Disseram que o motorista teria ido embora por causa do trânsito. A partir daí, começaram a improvisar. Falaram que estavam tentando vans, que nunca chegavam”, completou a fonte.

O relato ainda conta que muitos dos freelancers tiveram de pedir carona para desconhecidos durante a madrugada para conseguirem chegar em casa, resultando em quase 18 horas de trabalho para receber cerca de R$ 170 pelo serviço.

No fim, alguns pediram aumento para a contratante, que apenas disse que não era responsável pela situação e que os atrasos foram de apenas alguns minutos.