Geral
Contrabandistas faturam alto com doses de emagrecedores vendidas em seringas
Os chamados “contrabandistas da beleza” faturam alto com a prática, alcançando margens de lucro superiores a R$ 1 mil por caixa.
Dourados News
26 de Janeiro de 2026 - 15:58

Na onda da busca pelo shape “perfeito”, a febre pela tirzepatida medicamento indicado para o tratamento do diabetes, mas com efeito emagrecedor atingiu um novo patamar. Em Campo Grande, o comércio ilegal vai além da venda indiscriminada de caixas com ampolas trazidas do Paraguai: comerciantes passaram a oferecer o produto fracionado, em seringas prontas para aplicação e entregues por delivery.
✅ Receba no WhatsApp as notícias do RN
Os chamados “contrabandistas da beleza” faturam alto com a prática, alcançando margens de lucro superiores a R$ 1 mil por caixa ao vender doses avulsas.
Uma embalagem com quatro ampolas do T.G., um dos nomes comerciais da tirzepatida vendida em farmácias paraguaias, custa em média R$ 540 no país vizinho, conforme apurado pelo Campo Grande News com compradores que adquirem o produto “direto na fonte”. A caixa rende até 16 aplicações de 2,5 miligramas, que em Campo Grande são vendidas a R$ 100 cada. O faturamento chega a R$ 1,6 mil, garantindo lucro de cerca de R$ 1.060, sem considerar os custos com seringas e entrega.
Outro exemplo é o Lipoless MD, de 60 mg. Uma farmácia paraguaia consultada pela reportagem vende a caixa por R$ 650 e cobra R$ 150 pela entrega até Campo Grande. A ampola rende até 24 doses de 2,5 mg, que podem gerar R$ 2,4 mil em vendas, com lucro estimado em até R$ 1,6 mil.
A oferta das doses fracionadas ocorre principalmente em grupos de WhatsApp. O medicamento chega pronto para aplicação, com “taxa de entrega a combinar”. Em um desses grupos, com mais de mil membros, são comuns anúncios promocionais. Na semana passada, cinco aplicações de 2,5 mg do T.G. foram oferecidas por R$ 420, com entrega gratuita em toda a Capital.
Alto risco sanitário
Apesar da popularização do fracionamento, a Anvisa alerta para o alto risco sanitário da prática. Medicamentos injetáveis exigem esterilidade absoluta e qualquer falha no processo como a simples manipulação sem luvas pode causar contaminações por bactérias ou toxinas, levando a infecções generalizadas e até fatais.
A agência destaca ainda um conjunto de irregularidades: apenas farmácias podem comercializar a substância, mediante receita médica, e a embalagem do Mounjaro registrada no Brasil não permite fracionamento.
✅ Clique aqui para seguir o RN no Facebook
Sem medo dos riscos
Quem compra ignora os alertas e reage com irritação a qualquer questionamento. Em um dos grupos, após a menção a uma reportagem sobre a proibição da Anvisa, um participante rebateu: “Veio no grupo para isso?”. Outro respondeu: “Tá com medo, sai do grupo”.
Na comunidade virtual, os compradores também trocam dicas de aplicação para “aproveitar até a última gota” do líquido considerado “milagroso”. “Queria agradecer a alma bondosa que deu a dica de entortar a agulha para pegar o restinho da ampola”, escreveu uma usuária, estimulando novos comentários sobre o procedimento.
“Exportação” do produto
A venda do chamado “Mounjaro do Paraguai” não se limita a Mato Grosso do Sul. Grupos monitorados pela reportagem comercializam caixas inteiras para estados como São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e até Pernambuco. Nesses casos, o envio ocorre pelos Correios.
Nesta semana, uma das comerciantes anunciou aumento nos preços e mudança no método de envio. Em áudio compartilhado no grupo, alegou intensificação da fiscalização. “A pressão está muito grande, está muito difícil de trazer, está tendo muita apreensão”, afirmou.
✅ Clique aqui para seguir o RN no Instagram
Mais apreensões que drogas
Em 2025, o “contrabando da beleza” já resultou em mais apreensões do que flagrantes de tráfico de drogas nas rodovias de Mato Grosso do Sul, segundo o comandante da Polícia Militar Rodoviária, tenente-coronel Vinicius de Souza Almeida.
“O contrabandista trabalha com o que está na moda. Há alguns anos foi narguilé, depois vaper, e agora são as canetas emagrecedoras”, explicou o comandante, em entrevista concedida em novembro. Para ele, a fiscalização sozinha não é suficiente.




