Policial
Juiz que deu voz de prisão a funcionários diz ter cumprido normas da aviação civil
O magistrado, da comarca de Senador La Rocque (MA), negou ter se atrasado e afirmou que cumpriu as normas da aviação civil
Midiamax
10 de Dezembro de 2014 - 10:45
O juiz Marcelo Testa Baldochi se manifestou pela primeira em carta pública divulgada na internet, na tarde da última segunda-feira, sobre o caso em que ele deu voz de prisão a funcionários da TAM quando tentava embarcar do Maranhão para São Paulo. O magistrado, da comarca de Senador La Rocque (MA), negou ter se atrasado e afirmou que cumpriu as normas da aviação civil.
Muitos se contentam com as aparências, permitindo que a fantasmagoria prevaleça sobre a razão. Mas a razão não admite equívocos! O voo marcado para as 21h02 admitia o embarque, segundo as normas de aviação civil e do que consta do próprio bilhete, 15 minutos antes da partida, disse.
Todavia, mesmo com o check-in em mãos, às 20h32, os passageiros Marcelo Baldochi e Camila Costa foram impedidos de embarcar sob a alegação de que deveriam estar no local às 20h, relatou o juiz.
O juiz disse ainda que o agente da TAM não prestou qualquer informação e que não era problema dele, isolando-se numa sala da companhia. Baldochi informou ter registrado às 20h42 uma ocorrência na Infraero/Anac, contra a companhia e seu agente. Por fim, Baldochi afirmou que o agente incorreu em ilícito civil e criminal, e toda e qualquer pessoa pode dar voz de prisão e chamar a polícia.
Está na lei e ali se fazia presente um consumidor que exigia seus direitos, completou o magistrado.
Sindicância para investigar
A Corregedoria Geral da Justiça do Maranhão vai apurar, numa sindicância, a conduta do juiz Marcelo Testa Baldochi. Na Portaria 4824/2014, que instaura o procedimento, o corregedor em exercício, desembargador Antonio Fernando Bayma Araújo, destaca que há fortes indícios de conduta incompatível com o exercício da magistratura.
Bayma Araújo que substitui a corregedora Nelma Sarney, que participa de um congresso internacional nesta semana informou que as providências legais foram tomadas na manhã desta terça-feira. A sindicância será presidida pelo corregedor em exercício, que designou os juízes corregedores José Américo e Tyrone José para conduzir os trabalhos.
A comissão deverá desembarcar na Cidade de Imperatriz na próxima quinta-feira, quando os trabalhos de apuração do fato deverão ser iniciados. O prazo regular para a realização dos trabalhos da sindicância é de 30 dias, podendo ser prorrogado uma única vez. Ao final, deverá ser apresentado um relatório conclusivo do caso.
Entidades criticam juiz
Três entidades da magistratura AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), AMMA (Associação dos Magistrados do Maranhão) e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seccional Maranhão condenaram a atitude do juiz Marcelo Testa Baldochi.
Em nota assinada por seu presidente, João Ricardo Costa, e publicada nesta terça-feira no portal da entidade, a AMB disse compartilhar da indignação da sociedade e considera inadmissível qualquer atitude praticada por agentes públicos, magistrados ou não, que represente abuso de poder e de autoridade.
Em função das recentes notícias veiculadas sobre um juiz que teria dado voz de prisão a funcionários de uma empresa aérea, ao ser impedido de realizar o embarque, a AMB defende a transparente apuração dos fatos garantindo o devido processo legal; e reitera que o comportamento noticiado não representa a conduta dos juízes brasileiros, que laboram diariamente assegurando direitos fundamentais e as liberdades públicas, completa a nota.
O juiz Gervásio Protásio dos Santos, presidente da AMMA, já havia afirmado, na segunda (8), que não compactua com a atitude do juiz Marcelo Baldochi, atitude que, segundo Protásio, só denigre a magistratura. Ele afirmou ainda que vai pedir à Corregedoria do Tribunal de Justiça do Maranhão a apuração do caso.
Se for observado algum tipo de excesso, que haja efetivamente a punição, porque nós, magistrados do estado do Maranhão, não compactuamos com esse tipo de atitude, disse Protásio dos Santos.
A OAB, seccional do Maranhão, informou, em nota, que representará contra o juiz Marcelo Baldochi no CNJ (Conselho Nacional de Justiça), pois considera a atitude do magistrado incompatível com a dignidade do cargo.
O senhor está presinho
O episódio da prisão dos três funcionários da TAM ocorreu na noite do último sábado no aeroporto Renato Cortez Moreira, em Imperatriz, e foi gravado num celular por uma pessoa que estava presente no guichê.
Quietinho. O senhor está presinho, não sai daqui. Pra aprender a respeitar o consumidor, pode-se ouvir o magistrado dizer a um atendente da empresa aérea. E o senhor também, diz o juiz a outro funcionário que supostamente tenta intervir a favor do colega.
A Polícia Militar foi chamada e conduziu três funcionários apontados pelo juiz ao Plantão da 10ª Delegacia Regional de Imperatriz. Eles foram ouvidos e, em seguida, liberados.
A reportagem apurou que um dos funcionários conduzidos à polícia disse a colegas de trabalho que se sentiu humilhado pelo juiz, já que os procedimentos de embarque já haviam sido encerrados. A reportagem não conseguiu contato com o juiz Marcelo Testa Baldochi.
Trabalho escravo
O magistrado já foi acusado pela fiscalização do grupo móvel do Ministério do Trabalho, em 2007, de se utilizar de 25 trabalhadores em situação degradante (análoga à escravidão) numa propriedade sua, a Fazenda Pôr do Sol, em Bom Jardim (MA). Em 2011, Marcelo Baldochi foi condenado pela Justiça maranhense a indenizar em R$ 31 mil quatro desses trabalhadores, um deles menor de idade, na época.
Em dezembro de 2012, o juiz foi agredido a facadas e pauladas por um flanelinha, a quem não teria aceitado dar dinheiro, na saída de uma pizzaria, em Imperatriz.




