Policial
Mamógrafo novo não utilizado do Hospital Universitário favorecia máfia do câncer
Os responsáveis pelas informações fornecidas sobre o HC aos auditores do Denasus foram Issamir Farias Saffar (diretor clínico) e Adalberto Abrão Siufi (diretor geral desde 1997).
Midiamax
13 de Maio de 2013 - 10:40
De um lado, o Relatório de Gestão da UFMS 2012, finalizado em 11 de março deste ano, apontou que um mamógrafo novo, e sem uso adequado dentro do Hospital Universitário, realizou apenas 5 (cinco) atendimentos em 2012. O exame detecta a presença de tumor no seio, e por isso, é fundamental para o combate precoce do câncer.
Do outro lado, uma auditória do Denasus, o Departamento Nacional de Auditorias do SUS, também do começo deste ano, afirmando que a a maioria das pacientes com câncer de mama foram admitidas no Hospital do Câncer de Campo Grande com a doença já em estado avançado. E mais, o fato indica que as pacientes estão sendo diagnosticadas tardiamente.
E no meio das duas pontas, o diretor-geral da Policia Federal no MS, Edgar Paulo Marcon, que dirigiu a Operação Sangue Frio, declarando que havia uma máfia que desviava recurso do tratamento oncológico do SUS no estado.É difícil crer que os órgãos municipais ou estaduais não funcionem e só os particulares, já que a mesma pessoa controlava os dois, afirmou Marcon.
O 'controlador' citado pela PF é Adalberto Siufi, ex-presidente do HC, destituído há poucos dias. O 'órgão' que não funcionava era a oncologia do Hospital Universitário, que foi dirigida pelo mesmo médico até fechar as portas. O mesmo HU, que era dirigido por José Carlos Dorsa, exonerado a pedido, depois da operação da PF.
Os dois médicos são os principais suspeitos da máfia apontada por Marcon.
Na verdade, o mau uso do mamógrafo do HU pode estar relacionado com a mesma prática descrita em 2010, pelo então procurador dos Direitos do Cidadão, Felipe Fritz Braga, da Procuradoria Geral da República no MS, ao comentar o abandono da radioterapia do SUS.
Houve conflito entre interesses privados e o interesse público, em prejuízo deste, uma vez que o chefe de fato do setor de oncologia do HU também era diretor da Fundação Carmem Prudente, e sócio administrador de estabelecimento privado prestador do serviço de radioterapia (Neorad). Braga referia-se a Siufi.
Os dois investigados pela PF, como ex-diretores de hospitais, sabem que o câncer de mama é o que mais mata mulheres vitimadas pela doença no país. Segundo os últimos dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), as estimativas para 2012 indicavam o aparecimento de novos 52.680 no Brasil.
No MS, até 2010, a cada mil mulheres, quatro morriam de câncer na mama. Citando o MS em seus alertas,o INCA informou que dados recentes do projeto-piloto de rastreamento do câncer de mama em municípios do estado de Mato Grosso do Sul mostraram 10,7% de mulheres na faixa etária de 40 a 69 anos com ECM alterados. ECM se relaciona à metástase - a multiplicação de células cancerosas no organismo.
Além do mau funcionamento do mamógrafo e da radioterapia, Dorsa não quis receber no HC um acelerador linear doado pelo governo federal, que iria para o HC. Só aceitou porque a Justiça o obrigou, depois da pressão de sindicalistas, usuários do SUS e o Ministério Público.
Mulheres eram encaminhadas para o HC
Enquanto o Relatório de Gestão da UFMS em 2012 traz uma revelação impressionante sobre o número de mamografias do HU, as mulheres portadoras da doença fatal no MS eram encaminhadas para o HC.
Veja os números do Hospital Universitário:
Em 2008 foram 0 (zero) mamografias; em 2009, também 0 (zero); em 2010 foram 343; o ano de 2011 teve 961 mamografias; e no ano passado o mamógrafo do HU funcionou apenas 5 vezes.
Mesmo no auge de 2011, a média de 2,6 exames ao dia é considerada baixa.
Enquanto isso, na Auditoria Nº 12965 do Denasus no Hospital do Câncer, a própria diretoria destituída descreveu os tratamentos fornecidos pelos médicos e empresas ligados a Siufi, e pagos pelo SUS, depois da entrada tardia das pacientes graves. Tratamento caro cobrado do SUS, quando pouco se podia fazer pra salvar vidas.
Segundo o SUS, as mulheres chegavam ao HC com adiantado estadiamento da doença ou metástase, termos usados para frisar que o câncer já se espalhara pelo corpo da vítima. Veja:
N° 158560-Paciente admitida em 28/06/2010 com diagnóstico de câncer de mama já com exames de estadiamento. Foi operada uma semana após sua admissão, iniciou quimioterapia 23 dias após a cirurgia.
N° 165233-Paciente admitida em 14/12/2010 com tumor avançado de mama foram solicitados exames de estadiamento e iniciada a quimioterapia neo-adjuvante seis dias após a admissão, a paciente foi operada 21 após o termino da quimioterapia neo-adjuvante.
N° 146328-Paciente admitida em 03/09/2009 com diagnóstico de tumor avançado de mama foram solicitados exames de estadiamento e a mesma iniciou a quimioterapia neo-adjuvante em 04/09/2009, a paciente foi operada 21 dias após o termino da neo-adjuvante e prosseguiu o tratamento.
N° 72021-Paciente foi admitida em 27/06/2008 já apresentava metástases pulmonares, sendo submetida à biopsia na mama no mesmo dia iniciou, quimioterapia paliativa em 29/06/2008 e prosseguiu tratamento.
São vários os casos citados na auditoria, mas o número total de mulheres que deram entrada no hospital nessas condições fatais é desconhecido. Depois que o câncer se alastra a partir da mama, 61% das mulheres têm até mais cinco ano de vida, segundo o INCA.
Os responsáveis pelas informações fornecidas sobre o HC aos auditores do Denasus foram Issamir Farias Saffar (diretor clínico) e Adalberto Abrão Siufi (diretor geral desde 1997).
Siufi e Saffar, donos da Neorad, caíram com as investigações da PF.




