BRASIL
Após ano de conflitos, Câmara retoma trabalhos com pauta mais cautelosa
Primeira Página
02 de Fevereiro de 2026 - 09:42

A Câmara dos Deputados abre oficialmente os trabalhos legislativos de 2026 nesta segunda-feira (2) sob a presidência de Hugo Motta (Republicanos-PB). Após encerrar o ano anterior em meio a conflitos internos, pressões da oposição, ruídos com o governo e sucessivos embates com o Judiciário, o presidente da Casa sinalizou que o início do novo ano será marcado por uma agenda mais cautelosa, ao menos até o Carnaval.
A estratégia foi discutida com líderes partidários ainda na semana passada e busca reduzir tensões em um plenário que chegou a 2026 fortemente polarizado. Entre as prioridades imediatas está a votação de uma medida provisória do Executivo que institui o programa Gás do Povo, considerada essencial para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e próxima de perder validade.
Por outro lado, Motta tem atuado para evitar a abertura de novas frentes de conflito, como a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master, cuja iniciativa, se avançar, não deve partir da Câmara.
Promessas cruzadas e desgaste acumulado
O tema da anistia se transformou em um dos principais focos de desgaste da presidência da Câmara. Enquanto aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro defendiam o perdão amplo, setores governistas esperavam o arquivamento da proposta. O texto que acabou avançando foi resultado de articulação do Centrão e reduziu penas impostas pelo Supremo Tribunal Federal, frustrando a esquerda e não atendendo integralmente à direita.
A reação do Planalto veio com o anúncio de veto presidencial, formalizado de maneira simbólica no aniversário de três anos dos ataques às sedes dos Três Poderes. O episódio aprofundou a erosão da imagem de Motta, especialmente nas redes sociais, onde críticas à condução do processo se somaram a outros embates institucionais.
Cassações, STF e crises internas
Ao longo de 2025, a presidência da Câmara também foi pressionada pela condução de processos envolvendo parlamentares acusados de crimes graves ou quebra de decoro. Casos como os de Chiquinho Brazão, Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem e Glauber Braga expuseram tensões entre o Legislativo, o Supremo Tribunal Federal e diferentes blocos políticos.
Em algumas situações, a saída encontrada foi administrativa, sem votação em plenário; em outras, decisões do STF acabaram se sobrepondo à deliberação da Câmara. O desfecho desses episódios alimentou críticas tanto de aliados quanto de opositores, que passaram a questionar a capacidade de articulação e liderança do presidente da Casa.
Ocupações, recuos e críticas à condução
Outro capítulo sensível da gestão foi a condução de ocupações da Mesa Diretora por parlamentares, tanto da oposição quanto da esquerda. Em agosto, um protesto que durou mais de 30 horas pressionou pela votação de pautas sensíveis, como anistia, fim do foro privilegiado e impeachment de ministro do STF. Motta reagiu inicialmente com ameaças de punição, mas recuou dias depois, encaminhando representações à Corregedoria que não avançaram.
Meses depois, um novo episódio envolveu o deputado Glauber Braga, retirado à força da Mesa da Presidência durante protesto contra o próprio processo de cassação. A interrupção de transmissões oficiais, o bloqueio de acesso ao plenário e denúncias de agressões a jornalistas ampliaram o desgaste da presidência da Câmara e provocaram reação de entidades da imprensa.
Reformas travadas e agenda adiada
Apesar de ter anunciado a reforma administrativa como prioridade, Motta reconheceu, ao fim de 2025, que o tema enfrenta resistência e tende a avançar lentamente, especialmente em ano eleitoral. Propostas estruturantes, como a PEC da Segurança Pública e o projeto de lei antifacções, também foram empurradas para 2026 após reação de governadores e bancadas estaduais, que apontaram risco de centralização excessiva e invasão de competências.
Críticas sobre custos, ausência de fontes de financiamento e falta de diálogo prévio com o Congresso contribuíram para frear o andamento das matérias, em um ambiente ainda marcado pela polarização política.
Com a retomada dos trabalhos, Hugo Motta inicia 2026 tentando reequilibrar forças, reduzir conflitos e reconstruir pontes dentro da Câmara. A aposta em uma pauta mais moderada indica o esforço de preservar governabilidade em um Legislativo pressionado por disputas institucionais, eleitorais e narrativas cada vez mais radicalizadas.




