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SIDROLÂNDIA- MS

Mãe vive rotina de dor e silêncio há 54 dias à espera de notícias da filha desaparecida

O desaparecimento transformou completamente a vida da mãe, que passou a conviver diariamente com a ausência, o medo e a incerteza.

Redação/Região News

08 de Fevereiro de 2026 - 16:48

Mãe vive rotina de dor e silêncio há 54 dias à espera de notícias da filha desaparecida

Há 54 dias, a auxiliar de serviços gerais Valéria Alves Ramalho, de 37 anos, vive uma rotina marcada pela angústia e pela esperança de reencontrar a filha Isabelly Alves Casanatto, de 13 anos, desaparecida desde o dia 17 de dezembro de 2025, quando saiu de casa, no Bairro São Bento, em Sidrolândia.

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Isabelly foi vista pela última vez ao deixar a residência da família. Desde então, não houve mais informações sobre o paradeiro da adolescente. O desaparecimento transformou completamente a vida da mãe, que passou a conviver diariamente com a ausência, o medo e a incerteza.

Valéria relata que o trabalho tem sido uma das poucas formas de aliviar, ainda que temporariamente, a dor.“Eu trabalho porque sou a provedora da minha casa. Trabalhar me alivia, me distrai por algumas horas. O difícil é chegar em casa e encontrar apenas dor, silêncio, medo e um vazio enorme”, desabafa.

Além da angústia cotidiana, a mãe afirma que não recebeu qualquer apoio psicológico durante todo o período de buscas. “Em 54 dias, ninguém me ofereceu apoio psicológico. O que tem me sustentado são apenas as minhas orações e as orações de quem sente essa dor na alma como eu”, afirma.

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Valéria também faz questão de romper com estigmas frequentemente associados a casos como o de Isabelly. Segundo ela, a família sempre teve uma estrutura sólida e equilíbrio emocional.

“Tenho equilíbrio emocional porque tenho uma estrutura familiar boa. Esse é o primeiro caso de dependência na família. Infelizmente, achamos que isso só acontece onde há desestrutura, mas não. As drogas têm tomado conta e ninguém liga, até que nos tornamos vítimas”, relata.

A mãe conta que buscou ajuda em diversos órgãos da rede pública para tentar tratar a dependência química da filha antes do desaparecimento, mas esbarrou na burocracia e na falta de acolhimento.

“Fui pedir ajuda no CAPS, onde disseram que eu conseguiria atendimento. Me orientaram a conseguir um laudo para, via Ministério Público, solicitar a internação compulsória. O problema é que não havia psiquiatra disponível. Só existe atendimento no Centro de Especialidades Médicas, e apenas com agendamento”, explica.

Valéria destaca a dificuldade de exigir que uma pessoa em dependência química se adapte à rigidez do sistema.

“Como você vai dizer para essa pessoa não usar droga no dia da consulta ou simplesmente estar disponível naquele dia?”, questiona.

Segundo ela, houve negligência por parte do poder público.

“Houve falta de apoio, falta de ajuda. Não fazem isso porque não é filha de ninguém, era só a minha filha. Foi negligência”, afirma.

Ela também relata a atuação do CREAS após Isabelly deixar de frequentar a escola.

“Expliquei que minha filha estava passando por dificuldades por causa do envolvimento com drogas e que eu estava buscando ajuda. Eles demonstraram surpresa e me deram um encaminhamento para levá-la a um acompanhamento ginecológico”, relata.

Para Valéria, embora os procedimentos tenham seguido protocolos formais, faltou sensibilidade e ação efetiva.

“Conheço o funcionamento interno porque já trabalhei lá. Sei que a estrutura municipal e a rede de apoio nem sempre funcionam. Criam expectativas, mas quando realmente precisamos, o suporte não vem.”

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A psicóloga Aletânia Ramires avalia que casos como o de Isabelly deveriam mobilizar uma ampla rede de proteção, e não julgamentos.

“Quando uma adolescente desaparece e não é a primeira vez que isso acontece em Sidrolândia a sociedade deveria se mobilizar para protegê-la. Mas, nesse caso, preferiu julgar. A mãe foi culpabilizada por não conseguir proteger sozinha uma filha adoecida, e a adolescente foi reduzida a um estigma”, afirma.

Segundo a psicóloga, esse comportamento revela uma lógica cruel.

“Mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade acabam responsabilizadas pela violência que sofrem, enquanto o Estado falha em garantir proteção.