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Sidrolândia em alerta: alto índice de suicídio não é acaso, é um pedido de socorro coletivo
Sidrolândia registrou um dos maiores índices de suicídio do estado, com oito casos, segundo dados registrados no SIGO (Sistema Integrado de Gestão Operacional), utilizado pelas forças de segurança pública.
Redação/Região News
08 de Fevereiro de 2026 - 17:23

Por Aletânia Ramires Gomes
Sidrolândia registrou um dos maiores índices de suicídio do estado, com oito casos, segundo dados registrados no SIGO (Sistema Integrado de Gestão Operacional), utilizado pelas forças de segurança pública. Não é um número pequeno, nem distante da nossa realidade. São vidas, histórias, famílias e uma cidade inteira atravessada por uma dor que, muitas vezes, acontece em silêncio.
Quando olhamos para outros municípios com características semelhantes, percebemos que Sidrolândia não está sozinha nesse cenário. Ponta Porã, município de fronteira, com população estimada segundo o IBGE (2025) em 97.577 habitantes registrou sete casos, um número menor que Sidrolândia, realidades diferentes, mas marcadas por desafios parecidos, vulnerabilidades sociais, sofrimento emocional prolongado e dificuldades concretas de acesso aos serviços de saúde mental.
Isso nos mostra que o que acontece em Sidrolândia não é acaso nem exceção. Trata-se de um pedido de socorro coletivo, que precisa ser compreendido para além das histórias individuais. Altos índices de suicídio apontam para um adoecimento social, que exige respostas públicas, estruturadas e contínuas. Falar sobre suicídio é difícil, mas ignorar o tema não o torna menos real. Pelo contrário. Em muitos casos, o sofrimento se arrasta por meses ou anos enquanto a pessoa tenta, sem sucesso, acessar ajuda.
Filas longas, demora para agendar consultas, falta de profissionais e serviços sobrecarregados fazem com que muitos desistam no meio do caminho. Em saúde mental, a espera não é neutra, esperar pode agravar a dor e, em alguns casos, custar vidas. É justamente por isso que o debate precisa ser feito a partir da prevenção. Prevenir o suicídio não significa agir apenas em situações extremas, mas cuidar antes que o sofrimento chegue ao limite. A prevenção passa pelo acesso facilitado ao atendimento psicológico e psiquiátrico, por uma atenção básica fortalecida, por equipes preparadas para escutar e acolher, e por um cuidado humanizado, que reconheça a história e a dor de cada pessoa. Também é importante romper com mitos que dificultam a prevenção. Um deles é a ideia de que falar sobre suicídio incentiva o ato. Isso não é verdade. Falar de forma responsável protege.
O diálogo permite identificar sinais de sofrimento, abrir espaço para pedidos de ajuda e reduzir o isolamento. O silêncio, sim, é um fator de risco. Outro mito comum é o de que quem pensa em suicídio quer morrer. Na maioria das vezes, o que existe é o desejo de cessar a dor, o cansaço emocional e a sensação de não ter saída. Muitas pessoas não querem morrer; elas querem parar de sofrer. Quando encontram escuta, acompanhamento psicológico, apoio familiar e serviços acessíveis novas possibilidades se constroem.
Falar sobre suicídio é, acima de tudo, falar sobre cuidado, responsabilidade coletiva e compromisso com a vida. Nenhuma estatística pode ser tratada com indiferença, porque por trás de cada número existe alguém que sofreu em silêncio e uma família que fica sem resposta.
Como sociedade, precisamos fortalecer redes de apoio, cobrar políticas públicas efetivas em saúde mental e garantir que o sofrimento encontre escuta antes de chegar ao limite. Um alerta importante: Se você ou alguém próximo estiver passando por um momento difícil, saiba que não precisa enfrentar isso sozinho(a). O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, 24 horas por dia, pelo telefone 188, além de atendimento por chat e e-mail. Falar pode ser o primeiro passo para aliviar a dor e encontrar caminhos possíveis.
1 Aletânia Ramires Gomes, Psicóloga – CRP 14/05028-1. Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (ITCC/MS) e em Gestão Pública, Raça e Gênero (UFMS). Em especialização em Neurociência e Comportamento (PUC/RS). Atua na área de saúde mental e proteção de populações em situação de vulnerabilidade. Clínica Espaço Cuidar (67) 99297-2798.


