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ECONOMIA

Canetas emagrecedoras, bets e o juros altos impactam o consumo em MS

Impacto sobre o varejo de alimentos ainda é limitado, mas acende um sinal de alerta para o segmento.

Correio do Estado

24 de Janeiro de 2026 - 08:40

Canetas emagrecedoras, bets e o juros altos impactam o consumo em MS
Canetas emagrecedoras, bets e juros altos impactam o consumo em MS - Gerson Oliveira / Correio do Estado

O avanço das chamadas “canetas emagrecedoras”, a popularização das apostas on-line (bets) e a persistência de juros elevado vêm redesenhando o comportamento do consumidor brasileiro e acendendo um sinal de alerta no varejo de alimentos.

Em Mato Grosso do Sul, no entanto, especialistas avaliam que esses fatores tendem a produzir efeitos mais graduais, sem provocar uma queda abrupta no consumo básico, mas acendem um sinal de alerta para a mudança na estrutura de gastos das famílias no Estado.

Pesquisa da Worldpanel by Numerator publicada pelo jornal O Globo, aponta que além do crédito caro, o endividamento e a pressão da inflação sobre o orçamento familiar, os gastos com as bets e canetas emagrecedoras, tem pesado no bolso do consumidor.

“Em 2026, esperamos o consumidor com mais disponibilidade de renda. Mas se ele botar dinheiro de um lado, terá de tirar de outro. Mesmo sendo ano de Copa do Mundo e eleições, há mudanças de comportamento de consumo sendo construídas. Pode vir um crescimento, mas ainda não temos qualquer previsão”, alertou Daniela Jakobovski, diretora de contas da Worldpanel by Numerator em entrevista.

Ainda de acordo com a diretora, as mudanças na alimentação, por exemplo, devem começar a resultar em categorias mais estimuladas, como já ocorre com produtos proteicos.

“O avanço no acesso a conhecimento e uso de canetas emagrecedoras é um deles. O consumo de um lar, em comparação ao que registrava antes do início do uso de canetas, em alimentos e bebidas, tem uma redução de até 50%”, destaca Daniela.

Ao trazer a discussão para Mato Grosso do Sul, o mestre em Economia Eugênio Pavão avalia que a realidade local impõe limites a mudanças mais bruscas, mas que o segmento varejista precisa estar atento.

“A possibilidade de reduzir gastos em supermercados é um caso que ocorre em economias com renda alta. Para o Brasil e para MS, devido à baixa renda da população em geral, a queda no consumo de produtos alimentícios não deve sofrer grande impacto”, afirma.

Segundo ele, itens básicos seguem como prioridade no orçamento, ainda que o consumidor busque alternativas mais baratas, marcas próprias ou promoções.

No caso das canetas emagrecedoras, Pavão observa que o fenômeno pode abrir oportunidades para o setor de saúde, mas não necessariamente provocar um choque imediato no varejo alimentar sul-mato-grossense.

“Diante desse quadro, temos a possibilidade de ganhos para a área de saúde, como farmácias, indústria farmacêutica e serviços médicos. Os supermercados não devem ter impacto imediato, até porque têm condições de antecipar tendências de consumo e ajustar mix de produtos”, avalia.

Outro ponto de atenção destacado no estudo nacional é o crescimento acelerado das bets, que passaram a competir diretamente com outras despesas de lazer e até com gastos essenciais. Em Mato Grosso do Sul, onde o endividamento das famílias também é elevado, o economista alerta para riscos sociais e econômicos.

“A necessidade de obter ganhos financeiros estimula os consumidores a sonharem com jogos de azar, como loterias e aplicativos de apostas. Esse comportamento pode levar a condições de vida mais precárias, caso não haja parcimônia na jogatina”, diz Pavão.

Ele chama a atenção para o efeito demonstração criado pela publicidade agressiva, com ganhadores fictícios e estilos de vida idealizados, que acabam estimulando o vício, sobretudo entre pessoas já pressionadas por dívidas.