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Violência doméstica cresce em Mato Grosso do Sul e 2025 tem recorde de medidas protetivas
Primeira Página
13 de Fevereiro de 2026 - 08:40

No primeiro ano da morte de Vanessa Ricarte, que causou uma série de mudanças no sistema de proteção às mulheres, dados da Sejusp-MS (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) mostram que 2025, ano do feminicídio da jornalista, foi o ano mais letal para as mulheres, além de encerrar com maior número de pedidos de medidas protetivas de urgência desde 2020. O levantamento mostrou que os pedidos tiveram aumento de 30%.
Em 2020, foram solicitadas 12.264 medidas protetivas. O número subiu para 13.462 em 2021 e 14.552 em 2022. Em 2023, chegou a 15.401, manteve-se estável em 2024, com 15.387, e atingiu o pico em 2025, com 16.027 solicitações, aumento de 30,6% em relação a 2020.
O volume de medidas concedidas também cresceu no período. Foram 12.705 concessões em 2020, 13.566 em 2021 e 12.752 em 2022. Em 2023, o número saltou para 14.435 e atingiu o maior patamar em 2024, com 14.844 concessões. Em 2025, foram 14.451 medidas concedidas, o segundo maior resultado da série. Os dados de 2026 ainda são parciais, mas já indicam 2 mil medidas protetivas de urgência concedidas.
Embora 2024 tenha registrado o maior número absoluto de concessões, 2025 se destaca por manter o patamar elevado e registrar recorde de solicitações, indicando aumento da demanda por proteção judicial e pressão contínua sobre o sistema de justiça.
Concentração geográfica
Os dados do Painel de Monitoramento de Violência Doméstica em MS, entre os municípios e bairros com maior incidência de ocorrências, Dourados lidera com 5.219 registros. Em seguida aparecem Três Lagoas, com 2.348, e bairros de Campo Grande, como Campo Grande (2236), Jardim Noroeste (1.917), Nova Lima (1.713) e Centro (1.688). Corumbá também figura entre os destaques, com 1.733 ocorrências.
Os dados indicam concentração tanto no interior quanto na capital, com destaque para áreas urbanas densamente povoadas.
Perfil das ocorrências
A maioria dos casos envolve relações íntimas. Cônjuges aparecem como autores em 39.709 registros, seguidos por conviventes (21.912). Também há ocorrências envolvendo pais (6.476), filhos (4.985) e namorados (3.567).
O levantamento por raça/cor mostra predominância de vítimas pardas, com 104.461 registros. Mulheres brancas somam 52.531 casos, pretas 8.305, indígenas 2.383 e amarelas 433. Há ainda 32.426 ocorrências sem informação.
Tendência estrutural
A comparação entre 2020 e 2025 revela aumento consistente tanto nos pedidos quanto nas concessões de medidas protetivas. Especialistas apontam que a alta pode refletir maior conscientização e procura por ajuda, mas também indica persistência e agravamento da violência doméstica no Estado.
Com números recordes de solicitações em 2025 e manutenção de patamares elevados de concessões, o cenário reforça a necessidade de ampliação das políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção às vítimas.
Faixa etária
De acordo com o levantamento por faixa etária, a maior parte das vítimas está entre 30 e 59 anos. O grupo representa mais da metade dos registros. Em seguida aparecem jovens de 18 a 29 anos, que também concentram parcela significativa dos casos. Crianças de 0 a 11 anos, adolescentes de 12 a 17 anos e idosas acima de 60 anos aparecem com percentuais menores, mas ainda relevantes dentro do cenário geral.
Os dados indicam que a violência doméstica atinge principalmente mulheres em idade economicamente ativa, muitas vezes inseridas em relações conjugais ou de convivência, perfil que já havia sido identificado nos dados sobre relação entre autor e vítima.
Recorde de vítimas em 2025
O total de vítimas também mostra crescimento nos últimos anos. Em 2020, foram registrados 18.451 casos. Em 2021, o número subiu para 18.877. A partir de 2022, a curva passou a crescer de forma mais acentuada: 20.086 vítimas naquele ano, 21.070 em 2023, 21.141 em 2024 e o pico em 2025, com 22.083 registros de violência doméstica.
Na comparação entre 2020 e 2025, o aumento foi de 3.632 vítimas, o que representa crescimento de aproximadamente 19,6% no período. Os dados de 2026 ainda são parciais e não permitem comparação consolidada.
39 feminicídios
Mato Grosso do Sul registrou 39 casos de feminicídios em 2025. O caso de Vanessa Ricarte foi o 2º no ano. O número saltou 11% comparado com 2024. Os números evidenciam que as ações implementadas nos últimos 12 meses, no estado, não foram suficientes.
Antes do crime, Vanessa havia registrado boletim de ocorrência por ameaça e obtido medida protetiva contra o agressor. O autor está preso preventivamente e foi indiciado por perseguição, violência psicológica, cárcere privado e divulgação de cena de nudez.




