Mato Grosso do Sul
Canetas emagrecedoras mudam consumo de alimentos e pressionam varejo em MS
Pesquisa aponta redução de ultraprocessados, restaurantes e delivery, aprofundando desaceleração do setor supermercadista.
Correio do Estado
08 de Abril de 2026 - 08:22

O avanço das chamadas canetas emagrecedoras já começa a provocar uma mudança estrutural no consumo das famílias brasileiras e acende um alerta para o varejo de Mato Grosso do Sul, que já enfrenta perda de fôlego causada pelos juros elevados.
O uso crescente desses medicamentos está reduzindo o consumo de ultraprocessados e diminuindo a frequência em restaurantes e pedidos de delivery, o que pode provocar impactos em cadeia na economia.
Levantamento do Instituto Locomotiva, publicado pelo Valor Econômico, mostra que 95% dos domicílios em que há usuários dessas medicações registraram redução no consumo de pelo menos uma categoria de alimentos ou bebidas.
Os segmentos mais afetados são justamente aqueles com maior presença no varejo tradicional, como doces, snacks e salgadinhos, que tiveram queda de 70%. Também houve retração no consumo de bebidas açucaradas (50%), massas e outros carboidratos (47%), bebidas alcoólicas (45%) e alimentos ultraprocessados (42%).
Ao mesmo tempo, cresce a demanda por alimentos considerados mais saudáveis. Cerca de 4 em cada 10 domicílios passaram a consumir mais proteínas magras (30%), frutas e vegetais (26%), alimentos integrais (25%) e água ou chás sem açúcar (22%).
“A saudabilidade já era uma tendência. O que estamos vendo agora é esse movimento se acelerar com o uso das canetas”, afirmou Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, ao Valor Econômico.
Em Mato Grosso do Sul, essa transformação ocorre em um momento de maior restrição financeira das famílias. Conforme já mostrou o Correio do Estado, o consumo vinha sendo impactado pela combinação de juros elevados e aumento dos gastos com apostas on-line, as chamadas bets, que disputam espaço no orçamento doméstico e reduzem a renda disponível para compras.
O mestre em Economia Eugênio Pavão avalia que a realidade local impõe limites a mudanças mais bruscas, mas que o segmento varejista precisa estar atento. Ele observa que o fenômeno pode abrir oportunidades para o setor de saúde, mas não necessariamente provocar um choque imediato no varejo alimentar sul-mato-grossense.
“Diante desse quadro, temos a possibilidade de ganhos para a área de saúde, como farmácias, indústria farmacêutica e serviços médicos. Os supermercados não devem ter impacto imediato, mas precisam antecipar tendências de consumo e ajustar o mix de produtos”, avaliou.
Para o comércio sul-mato-grossense, o desafio passa a ser entender esse novo consumidor, mais pressionado por juros e exposto a novas formas de gastos. Em todo o País, supermercados e atacarejos já vêm reagindo com estratégias de preços, ampliação de marcas próprias e reforço em categorias de maior giro.
Ao mesmo tempo, farmácias e drogarias ganham protagonismo, impulsionadas pela maior demanda por medicamentos e serviços de saúde.
No curto prazo, a avaliação predominante entre economistas é de cautela. “A economia segue desacelerada, e o consumo só deve ganhar algum fôlego mais à frente, se houver melhora consistente da renda e do crédito”, ponderou o economista Eduardo Matos.
Segundo ele, o cenário descrito pelo estudo nacional se manifesta em Mato Grosso do Sul de forma menos intensa, mas não deixa de exigir atenção.
No Estado, onde o consumo das famílias tem forte influência no desempenho do comércio e dos serviços, a disseminação desses medicamentos reforça um cenário de mudança no perfil de gastos.
MUDANÇAS
A pesquisa indica ainda que as mudanças provocadas pelos medicamentos vão além do supermercado. Nos domicílios em que há uso das canetas, 47% registraram diminuição na frequência de ida a restaurantes e 56% reduziram pedidos de delivery e fast-food, o que amplia o impacto sobre bares, lanchonetes e aplicativos de entrega.
Um dos fatores que explicam essa mudança é a diminuição do apetite provocada pelos medicamentos. Ao imitarem o hormônio GLP-1, as canetas retardam o esvaziamento do estômago e aumentam a sensação de saciedade. Segundo o estudo, 80% dos domicílios com usuários relatam redução do apetite.
O levantamento também mostra que o uso dos medicamentos não está restrito às classes de maior renda. Entre os entrevistados das classes C, D e E, 30% afirmaram que alguém do domicílio usa ou já utilizou a medicação. Nas classes A e B, o porcentual é de 39%.
Para Meirelles, o avanço do uso também reflete a presença de um mercado informal ativo. “Muita gente fala do mercado formal, das patentes que podem popularizar, mas esquecem do mercado informal. Só tem produto pirata se tem demanda”, afirmou.
A tendência é de ampliação do acesso nos próximos anos e a quebra da patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, deve permitir a entrada de versões genéricas.




