Logomarca

Um jornal a serviço do MS. Desde 2007 | Quinta, 20 de Junho de 2024

Policial

Paranhos: Índios sepultam bebê em terra retomada e prometem resistir a fazendeiros

16 de Agosto de 2012 - 08:31

Foi enterrada na tarde desta quarta-feira (15) a menina de nove meses de idade que morreu na área indígena Arroyo Corá, em Paranhos, a 477 quilômetros de Campo Grande. Segundo a mãe do bebê, Beatriz Centurião, de 20 anos, a criança passou mal logo após o confronto no último dia 10 entre homens armados e um grupo de guarani-kaiowá.

Cerca de 200 índios iniciaram na última semana a retomada de fazendas que, segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio), desde 2009 foram consideradas terras indígenas. Mas a homologação da posse foi suspensa por uma liminar conseguida no STF (Supremo Tribunal Federal) pelos fazendeiros que ocupam a terra.

Segundo relatos dos indígenas, capangas armados atacaram o grupo com armas de fogo. A equipe de reportagem esteve no local nesta manhã, onde há diversos cartuchos de tiros de borracha deflagrados, além de marcas de disparos na vegetação. Nesta tarde, jovens indígenas ainda se ocupavam recolhendo as capsulas que restaram do ataque.

A Funai confirma a versão dos índios, e diz que policiais estiveram no local logo após o ataque e recolheram capsulas de projéteis de diversos calibres.

Os proprietários da fazenda negam que tenha havido alguma reação por parte deles.

Cova na Tekohá

Na correria causada pelos tiros, a mãe do bebê teria se desequilibrado e a criança, que estava no colo, embora não tenha chegado a cair no chão, sofreu ferimentos. A menina de nove meses passou a noite toda chorando e morreu no final de semana.

O corpo foi levado para necropsia em Ponta Porã e devolvido para a família hoje. Mas os parentes não tiveram informações sobre as causas da morte ainda.

O tio da criança, Arnaldo Centurião, de 25 anos, preparava um local para enterrar o bebê próximo de onde já ergueram um barraco. “Vamos deixar aqui perto para cuidar”, explicou enquanto preparava a cova na tekohá (espaço onde se vive, em guarani).

Arnaldo negou a informação inicial de que a menina tinha sido pisoteada durante a fuga, mas culpou o ataque pela morte da sobrinha. “Chegaram atirando e assustou todo mundo. Minha irmã não deixou ela cair, mas correram e ela se desequilibrou também”, resume.

A avó, lamentando aos berros em guarani, questionou à reportagem sobre os motivos para o corpinho da neta estar ‘costurado’ do pescoço até a cintura. Os familiares não entenderam a ‘costura’, na verdade, cicatriz da necropsia.

A retomada

Enquanto velavam o bebê, que consideram a primeira vítima do ataque, os índios realizavam uma reunião para decidir os próximos passos no processo que chamam de retomada da tekohá Arroyo Corá.

De acordo com as testemunhas, um índio, identificado como Eduardo Pires, de aproximadamente 50 anos de idade, estaria desaparecido desde o último dia 10. Mesmo assim, a decisão do grupo é resistir.

Apesar de afirmarem que estão desarmados, eles prometeram que vão enfrentar supostos ataques de pistoleiros.

“Daqui não vamos sair mais. Estamos agindo porque o Governo Brasileiro não age. Dizem que já homologaram e que a terra é nossa, mas não entregam nenhum registro. Sem um papel, não recebemos apoio nenhum e não temos como sobreviver”, explicou Dionísio Gonçalves, 35 anos, e um dos líderes.

Aproximadamente 200 índios que a reportagem viu no local estão organizando pequenos grupos de barracos onde as famílias se instalam. Segundo eles, não há segurança alguma na área e o medo de novo ataque é constante.

Alguns se alternam na vigília para avisarem em caso de aproximações suspeitas.

Lideranças dos guarani afirmam que os fazendeiros teriam contratado pistoleiros paraguaios que andam fortemente armados com ordem de intimidar e matar os índios na região.

O MPF (Ministério Público Federal) informou que já pediu a instauração de inquérito policial para apurar a ocorrência de crimes e preservar o local dos fatos para futuros exames periciais.

No Sindicato Rural de Paranhos, cujo presidente está afastado para participar da disputa eleitoral, a informação foi de que ninguém se manifestaria sobre o assunto.