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SIDROLÂNDIA- MS

Superintendente chama criança autista de ‘criatura’, expõe crise no transporte escolar e é criticado por vereadora mãe de filho com TEA

Reunião para discutir transporte escolar da zona rural se transforma em episódio de forte comoção e críticas sobre falta de sensibilidade.

Redação/Região News

02 de Março de 2026 - 10:40

Superintendente chama criança autista de ‘criatura’, expõe crise no transporte escolar e é criticado por vereadora mãe de filho com TEA
Superintendente de Transporte do município, Luiz Cesar Assmann. Foto: Marcos Tomé/Região News

Reunião para discutir transporte escolar da zona rural se transforma em episódio de forte comoção e críticas sobre falta de sensibilidade e escancara desafios enfrentados por crianças com autismo e necessidades especiais em Sidrolândia.

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O que era para ser uma reunião de pais e mães cobrando melhorias no transporte escolar da zona rural na manha de hoje na Câmara Municipal, acabou em choque e comoção quando o superintendente de Transporte do município, Luiz Cesar Assmann, relatou um episódio envolvendo uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) com palavras que muitos presentes classificaram como desumanas.

No encontro, pais denunciavam condições precárias de ônibus antigos, ausência de monitores e trajetos desgastantes com alguns alunos tendo que percorrer mais de 103 quilômetros por dia para ir e voltar à escola após mudanças nas rotas. Foi nesse clima de tensão que o superintendente comentou um incidente em que um veículo apresentou problema mecânico e ele foi verificar no local.

Superintendente chama criança autista de ‘criatura’, expõe crise no transporte escolar e é criticado por vereadora mãe de filho com TEA
Vereadora visivelmente emocionada ao deixar reunião. Foto: Marcos Tomé/Região News

“Quando cheguei, me deparei com uma criança autista e não sabia o que fazer com aquela ‘criatura’, disse o gestor, numa fala que provocou silêncio e, em seguida, revolta entre os familiares presentes. A vereadora Elaine Souza (PP), mãe de um menino autista de 7 anos, ficou visivelmente abalada. Entre lágrimas, pediu respeito, humanidade e preparo profissional de quem ocupa cargos públicos.

“Não é apenas um número, não é apenas uma demanda. São seres humanos, com sensibilidades, rotinas e desafios que exigem respeito”, declarou, antes de se retirar da reunião claramente emocionada. Ela foi amparada pela colega de plenário Shirley Basso (PL), que ofereceu água e palavras de consolo à parlamentar diante dos olhares consternados de familiares e funcionários públicos presentes na reunião.

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O vereador Cledinaldo Cotocio, também presente, criticou duramente a postura do superintendente, afirmando que “não há diálogo” e que a maneira como a reunião foi conduzida demonstrou falta de preparo para lidar com questões sensíveis da comunidade escolar. “Iremos trancar a pauta da Câmara até que este assunto do transporte seja resolvido”, disparou o parlamentar em entrevista ao região news.

Autismo

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), representando cerca de 1,2% da população com maior incidência entre crianças e adolescentes, especialmente entre os 5 e 9 anos de idade. O TEA é um conjunto de condições neurobiológicas que afetam a interação social, a comunicação e o comportamento, manifestando-se de forma distinta em cada pessoa.

Entre os principais sinais estão dificuldade em interações sociais, atraso ou diferença na comunicação verbal e não verbal, interesses restritos e padrões repetitivos de comportamento e também sensibilidade aumentada a sons, cheiros, luzes e texturas. Essas características tornam ainda mais importante o acompanhamento especializado, tanto na escola quanto em deslocamentos diários como o transporte escolar.

Monitores treinados podem garantir que crianças com autismo tenham suporte emocional e comportamental durante trajetos longos, reduzindo ansiedade, estresse sensorial e episódios de crise, fatores que familiares apontam como essenciais e hoje ausentes em muitos serviços públicos.

Famílias presentes relataram que o transporte escolar na zona rural circula sem monitores, profissionais cuja função é acompanhar e assistir alunos com necessidades especiais e garantir que trajetos longos não se tornem jornadas de sofrimento. A falta desse suporte se torna ainda mais crítica quando percursos se estendem por mais de 100 quilômetros por dia, expondo crianças a horas de deslocamento sem supervisão adequada, conforto ou atenção especializada.

“Uma criança com TEA pode ter comportamentos intensos se estiver desconfortável, confusa ou sensorialmente sobrecarregada. Nessas horas, a presença de um monitor faz toda a diferença”, afirma a vereadora e professora, Juscinei Claro. A fala do superintendente já gerou repercussão nas redes sociais e pode representar violação à Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que assegura dignidade, respeito e igualdade de condições às pessoas com deficiência, vedando qualquer forma de discriminação ou tratamento degradante.

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A lei também prevê a adaptação de serviços públicos para garantir acessibilidade e inclusão plena. A Prefeitura de Sidrolândia ainda não emitiu nota oficial sobre o episódio, mas a repercussão social e política indica que o caso deve seguir no centro do debate público nos próximos dias, com foco na garantia dos direitos de crianças com necessidades especiais e na humanização do serviço público.